Dou a palavra…

a RUI VELOSO e a CARLOS TÊ. Depois de uma semana de forçada ausência, o «Dou a palavra…» regressa imbuído do espírito popular que se tem vivido estas semanas e apresenta «Baile da Paróquia», uma das mais carismáticas faixas que constitui o álbum Mingos e os Samurais. Bom domingo!

Fui ao baile da paróquia
Por alturas do S. Pedro
Levei a minha lambreta
E o meu velho blusão negro

Pus calças americanas
Coçadas e muito justas
Calcei botas alentejanas
E cosi um dragão nas costas

Punham só Gianni Morandi
Nelson Ned e Marisol
Fui ter com o disco-joca
Encomendei rock and roll

Fui buscar a paroquiana
Mais bela da diocese
Era tão pura e singela
Que até dava catequese

Fui ao baile da paróquia
Lá para os lados de Valbom

Ensinei-lhe a dançar shake
Pus a pista em alvoroço
Quando fomos dançar slow
A bela não me deu roço

Puxei-lhe o braço com força
Fiz uma cena de macho
Estavam lá os irmãos dela
Levei um arraial de facho

Vim de lá feito num oito
Com a poupa esfrangalhada
E não me valeu de nada
Dizer que era baterista
Já ninguém tem respeito
Pelos excessos de um artista

Fui ao baile da paróquia
Lá para os lados de Valbom

in Mingos e os Samurais, 1990, EMI – Valentim de Carvalho, Música, Lda.

Sábado é dia de…

AZUL… Bom fim de semana!

in flickr.com, via Pinterest (Nescafé Capuccino)

in flickr.com, via Pinterest (Nescafé Capuccino)

Olha para o negro dos meus olhos.

Fotografia in www.dancamacho.com, via Pinterest (Brianna Farrell)

Fotografia in www.dancamacho.com, via Pinterest (Brianna Farrell)

Olha para o negro dos meus olhos. Tens coragem, ainda assim, de me deixar? Não tens vontade de voltar a sentir o que outrora nos arrepiou a pele?

Continuas, insistentemente, a tirar a tua roupa de dentro das gavetas; retiras dos cabides as tuas camisas, reduzindo-os a retorcidos fios de arame pendendo num armário que se vai enchendo de vazio.

Pareces não ouvir os meus passos atrás dos teus, tentando, desesperadamente, apagar o caminho que constroem até à saída da minha vida. Peço-te que pares, mas dizes que não podes; que não consegues; que é impossível parar o que já aconteceu. E, quando bates com a porta, penso que, porventura, enquanto esperas pelo elevador, te possas arrepender e regresses. Porque, se o negro dos meus olhos não te travou, talvez o consiga o vermelho que agora os faz arder.

Sábado é dia de…

Desenho de Elisabete Fiel

Desenho de Elisabete Fiel

Bom fim de semana!

Dou a palavra…

a ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY. Hoje, O Principezinho tem uma coisa para vos dizer, no entanto, o livro não se esgota aqui, muito pelo contrário…

«– Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…»

in SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, O Principezinho, 26.ª edição, Queluz de Baixo, Editorial Presença, 2006

Sábado é dia de…

SARDINHAS! Dia de Santo António sem sardinhas é quase blasfémia! Bom fim de semana.

Fotografia de Bruno Conceição in Bruno Conceição Design & Fotografia, www.brunoconceicao.net)

Fotografia de Bruno Conceição in Bruno Conceição Design & Fotografia, www.brunoconceicao.net)

Talvez vá.

Fotografia de Ohma in www.thebeck.tumblr.com, via Pinterest

Fotografia de Ohma in www.thebeck.tumblr.com, via Pinterest

O rio corre limpo; limpo corre o rio. À sua beira, sinto calor apesar de nuvens opacas impedirem que a luz quente do Sol chegue até mim; sinto calor, porque pousou em mim um olhar; aquele olhar que, reconfortante como um copo de vinho, me lembrou que ainda estava viva. Ouço uma guitarra lá longe; os seus acordes preenchem-me como um mosaico enche um chão. Um mosaico. Um chão. À minha frente, está a estação de comboios. Talvez vá.

As pernas quase se levantam; quase correm para o sítio onde disseste que estarias à minha espera; chego até a sentir os músculos contraírem-se, impelindo-me para dentro de um dos vagões do comboio que em breve sairá. As pernas. Os músculos.

Consigo sentir os teus beijos na minha pele e ouvir a tua respiração acelerada de encontro ao meu corpo; o meu corpo que tantas vezes gritou por ti, em agonia por não te ter; o meu corpo que, agora, a uma palavra tua quer deixar tudo para trás e agarrar-se ao teu. Passam, diante de mim, pessoas que correm, apressadas. E eu, lutando comigo, apenas consigo pensar na suavidade dos lençóis em que dormiríamos esta noite. Um corpo. Uma palavra.

Um silvo agudo penetra pelo ar fora e fura os meus pensamentos. O comboio vai sair. Um cansaço absurdo abate-se sobre mim e qualquer movimento que pense fazer afigura-se-me insuportável. Sei que os vagões já começaram a deslizar; já começaram o seu caminho sem mim. Percebo as lágrimas na minha face; lágrimas que chorei já tantas vezes. Ainda ouço a guitarra lá longe. Obrigo-me a levantar e sigo o seu som. O teu olhar ainda em mim. As lágrimas. A guitarra. Amanhã, a estação de comboios continuará ali. Talvez vá.

Dou a palavra…

a William Shakespeare e, quase de certeza, à história de amor mais vezes contada.

«Na bela Verona, onde se vai passar este drama, duas famílias, iguais em nobreza, impulsionadas por antigos rancores, fazem com que entre si se desencadeiem novas discórdias, em que o sangue dos cidadãos tinge as mãos dos cidadãos.

                Das entranhas fatais destas duas famílias inimigas, e sob funesta estrela, nascem dois amantes, cuja desventura e lamentável ruína há-de enterrar, com a sua morte, a luta dos seus pais. As terríveis peripécias deste fatal amor e a raiva obstinada desses pais, que nada pôde aplacar senão a morte dos filhos, vão ser, durante duas horas, o assunto da nossa representação. Se quiserdes ouvir-nos com benévola atenção, o nosso zelo há-de esforçar-se por corrigir o que nela achardes de insuficiente.»

 

in SHAKESPEARE, William, Romeu e Julieta, Coleção Novis, Lisboa, 2000

Sábado é dia de…

batom

in www.erospainter.tumblr.com, via Pinterest (Marilyn Mendes)

USAR AQUELE BATOM que nunca temos coragem para pôr, porque, afinal, é só para ir para o trabalho, é só para ir ao supermercado, é só para…

Hoje é sábado, não há desculpa: é dia de usar AQUELE BATOM!…

 

Sonhei contigo.

Fotografia de Ibai Acevedo in Flickr, via Pinterest (Med Lugo Garay)

Fotografia de Ibai Acevedo in www.flickr.com, via Pinterest (Med Lugo Garay)

Sonhei contigo. Que estavas ao pé de mim, que conversávamos, que ríamos, que tínhamos uma vida normal; tão normal quanto pode ser a vida num sonho. Fumavas no sonho. Sempre. Era o teu vício. E, assim, me senti um bocadinho mais perto de ti. Sabia, agora, qual era o teu vício.

A noite passada, sonhei contigo e, por mim, trocaria de bom grado os dias de olhos abertos, a ver o que já vi, por noites em que, de olhos fechados, estou ao pé de ti a viver o que não vivo.