Douro Inspired Shoot

Fotografia de Lounge Fotografia in www.loungefoto.com

Fotografia de Lounge Fotografia in www.loungefoto.com

A Lounge Fotografia teve a amabilidade de confiar em mim e na Letras num Papel para escrever os textos que acompanham esta fantástica e inspiradora sessão fotográfica cujo objetivo é mostrar ao mundo a beleza única da região do Douro e apresentá-la como localização privilegiada para celebrar um casamento. A conjugação dos vários talentos convidados a participar foi um álbum repleto de imagens verdadeiramente belas que, tenho a certeza, irão atrair muitos, dentro e fora do país. E digo «fora do país», porque este trabalho foi também publicado pelo blog Style Me Pretty, tendo, desta forma,  o destaque internacional merecido; neste endereço vão encontrar os textos da Letras num Papel devidamente traduzidos para o inglês.

Muito obrigada pela oportunidade!

Dou a palavra…

a Catulo e a um dos poemas mais arrebatadores de todos os tempos. Apresento-o no original, em latim, e também a respetiva tradução. Bom domingo.

Vivamus, mea Lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis.
Soles occidere et redire possunt:
nobis cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
Da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum,
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

Vivamos, Lésbia minha. Vivamos para amar.
E deixemos de parte as sombras da velhice.
O sol desaparece e pode voltar
E nós dormiremos sempre a noite inteira
Quando a luz breve declinar!
Oh! Beija-me mil vezes — mil vezes mais!
Beija-me outras mil vezes — mil vezes mais!
Beija-me ainda mil vezes — mil vezes mais!
Depois — excedido o número de milhar,
Misturemos os beijos de tal forma
Que os não sejamos capazes de contar,
Nem algum invejoso destes beijos
Os possa cobiçar!

Sábado é dia de…

in www.tumblr.com (via Pinterest, Breanne Willoughby)

in www.tumblr.com (via Pinterest, Breanne Willoughby)

RECOMEÇOS. Na minha cabeça, setembro está sempre associado a recomeços, a voltar a ter a oportunidade de fazer tudo outra vez,  como se começasse um novo ciclo. Por isso, bons recomeços! Bom fim de semana!

O verão (e o regresso!)

Fotografia de Andy Van Tilborg, in https://500px.com

Fotografia de Andy Van Tilborg, in https://500px.com

O verão tem destas coisas. Aparece o sol que estica os dias e alonga as sombras para podermos fechar tranquilamente os olhos e esperar por nada a não ser o lento passar dos minutos. Que sonho! Fazer do sol balão  e voar tão alto como um pássaro…

A casa

Fotografia de Mercuro B. Cotto in www.mymodernmet.com, via Pinterest (Joie Ling)

Fotografia de Mercuro B. Cotto in www.mymodernmet.com, via Pinterest (Joie Ling)

Tinha aquela má disposição que vem do nada e teima em não se dissipar. À medida que as horas se passaram, foi caindo sobre ela uma ansiedade que não conseguia explicar. Tudo o que lhe diziam era mal dito e, por isso, levavam uma resposta torta, à altura do seu mau humor. As tarefas domésticas, que costumava levar com bastante ligeireza e considerava até agradáveis, nesse dia, pareceram-lhe maçadoras, inúmeras e intermináveis. Era como se todo o peso daquela casa enorme e de tudo o que ela acarretava na resolução da sua vida lhe tivesse caído, sem aviso prévio e de uma só vez, nas costas. As escadas custavam-lhe a subir e a descer, parecendo, a cada degrau, que as pernas se tornavam mais e mais pesadas. Subir e descer. Subir e descer. A sua vida era feita de subir e descer. As mesmas escadas. As escadas daquela casa. Aquela casa que, agora, lhe caía em cima e pesava toneladas. Aquela casa que se tinha transformado numa âncora tão aferrada ao chão, que não a deixava mexer-se. Para lado nenhum.

Dou a palavra…

a SUN TZU. Escrito há 25 séculos, na China, este tratado sobre a guerra é, ainda hoje, uma referência sobre o tema. Este domingo, a Letras num Papel apresenta um excerto do capítulo V, «A Energia», e, se à partida, lhe parecer básico, pense outra vez… A Arte da Guerra.

«Sun Tzu disse:

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De modo geral, comandar muitas pessoas é o mesmo que comandar algumas. É uma questão de organização.

Chang Yu: Para dirigir um exército, primeiro é preciso confiar as responsabilidades aos generais e aos seus assistentes e fixar os efectivos das diversas formações…

Um homem é um simples soldado; dois homens, formam um par; três, um trio. Um par mais um trio formam um grupo de cinco, ou seja, um esquadrão; dois esquadrões formam uma secção; cinco secções, um pelotão; dois pelotões, uma companhia; duas companhias, um batalhão; dois batalhões, um regimento; dois regimentos, um grupo de combate; dois grupos de combate, uma brigada; duas brigadas, um exército. Cada um destes elementos está subordinado àquele que o precede na hierarquia e tem autoridade sobre aquele que lhe é imediatamente inferior e cada um é convenientemente treinado. Deste modo, é possível dirigir um exército de um milhão de homens como se fosse um punhado de pessoas.»

in TZU, Sun , A Arte da Guerra, Relógio d’Água Editores, 2009

O último pontapé

Fotografia de Roberto Alarcon in www.flickr.com, via Pinterest (Mito Grafía)

Fotografia de Roberto Alarcon in www.flickr.com, via Pinterest (Mito Grafía)

Deu-lhe o último pontapé na zona do estômago. Doía-lhe o corpo devido à força que cada um dos seus músculos tinha feito. Já não ouvia gemidos há uns minutos, apenas via um vulto caído no chão, dobrado em si mesmo, protegendo-se como podia. Afastou-se. A respiração acelerada, a boca aberta por onde escorria um fio de saliva. Pôs as mãos na parede e, apoiando-se, baixou a cabeça. Lentamente, o coração voltou ao seu compasso habitual. Olhou para o relógio: já passava das 14h15. Tinha de sair; antes, porém, voltou à cozinha e entreabriu a porta. Ainda lá estava, sem se mexer. Não se aproximou; a simples ideia de o fazer, de ter de cheirar a sua transpiração, de ter de sentir o odor da derrota que lhe impregnava a pele, parecia-lhe incomportável. Virou-se e saiu, batendo com a porta. Enquanto descia as escadas, compunha a cara, ajeitava o sorriso e, quando se cruzou com a vizinha do andar de cima, disse, amavelmente «Olá! Como está? Faça favor!». A cada passo, as bofetadas, os insultos, os murros de punho fechado eram apenas uma lembrança longínqua; chegava mesmo a duvidar de que tudo aquilo alguma vez tivesse acontecido. Convencia-se de que tinha sonhado, porque, na verdade, não era capaz de fazer nada assim. Quando, logo, regressasse, tinha a certeza de que ninguém estaria no chão da cozinha e os cacos que imaginou terem ficado espalhados pelo chão não existiriam. Logo, quando voltasse, tudo seria diferente e não mais tornaria a ter sonhos daqueles.

                Sentiu o pontapé no estômago, mas já não conseguiu reagir. Depois, ouviu como saía pela porta, parando no corredor. Ouviu a sua respiração, acelerada e profunda, voltar ao normal. Continuava sem se mexer, quando sentiu a porta a entreabrir-se e uma cabeça a espreitar. «Não te mexas. Não te mexas», repetia para si. Permanecia imóvel, como se tivesse morrido ou, pelo menos, como se a morte rondasse o seu corpo doído e cansado de apanhar. Escutou o bater da porta da rua. Havia saído. Lentamente, tentou mexer-se: primeiro os braços, que tinha mantido a rodear a cabeça, para se proteger; depois, as pernas, que esticou e obrigou a suportar o seu peso. A cada movimento correspondia uma guinada, uma pancada descoberta, uma nódoa negra que iria certamente aparecer. Apoiando-se nas paredes, conseguiu, a pouco e pouco, chegar à casa de banho. Viu o seu rosto refletido no espelho por cima do lavatório. Desta vez, não teria de usar óculos escuros ou inventar uma história inútil para justificar um lábio rasgado – a cara tinha escapado. De volta à cozinha onde, desta vez, tudo tinha acontecido, avaliou o que teria de limpar: cacos de pratos e de copos pelo chão, líquido derramado, comida entornada. Decidiu começar já a apanhar tudo; não queria correr o risco de, mais tarde, estar tudo ainda naquele estado e, assim, dar-lhe outra oportunidade para que isto se repetisse. Assim, teria a possibilidade de conseguir uns dias de paz, dois, três, talvez uma semana.

                A campainha tocou. Sentiu o sangue parar-se nas veias. A medo, viu quem seria pelo óculo. Era a vizinha do andar de cima. Teria ouvido alguma coisa? Tivera tanto cuidado para não fazer barulho. Compôs a roupa, respirou fundo e abriu a porta. «Boa tarde, vizinho! Olhe, o carteiro pôs, por engano, esta carta na nossa caixa.», «Obrigado, vizinha! Até logo.» Fechou a porta, aliviado. Parecia não ter dado conta de nada.

Dou a palavra…

a LEWIS CARROLL. Quando se comemoram 150 anos da obra Alice no País das Maravilhas, são ainda muitos os mistérios que a mesma encerra, sendo que num ponto existe consenso: é muito mais do que um simples conto para crianças. Deixo-vos com uma passagem do capítulo 5, «Advice from a Caterpillar», no original.

«The Caterpillar and Alice looked at each other for some time in silence: at last the Caterpillar took the hookah out of its mouth, and addressed her in a languid, sleepy voice.

“Who are You?” said the Caterpillar. This was not an encouraging opening for a conversation. Alice replied, rather shyly, “I — I hardly know, Sir, just at present — at least I know who I was when I got  up this morning, but I think I must have been changed several times since then.”

“What do you mean by that?” said the Caterpillar, sternly. “Explain yourself!”

“I can’t explain myself, I’m afraid, Sir,” said Alice, “because I’m not myself, you see.”

“I don’t see,” said the Caterpillar.

“I’m afraid I can’t put it more clearly,” Alice replied very politely, “for I can’t understand it myself, to begin with; and being so many different sizes in a day is very confusing.”»

CARROLL, Lewis, The Annotaded Alice, Alice’s Adventures in Wonderland and Thought the Looking-Glass, Penguin Books.

 

Sábado é dia de…

Fotografia in www.bonnieplants.com, via Pinterest (My MN Green Acre)

Fotografia in www.bonnieplants.com, via Pinterest (My MN Green Acre)

CHEIROS! Um em particular, que me faz sempre lembrar a minha terra: o dos orégãos!… Bom fim de semana.

A teia

Teceu a sua teia o melhor que conseguiu. Uma flor invisível, que apenas surgia para o mundo quando as gotas de orvalho iluminavam os seus fios. Debilidade feita força. Fragilidade tornada fortaleza. Beleza que mata.

Fotografia de Bruno Conceição in brunoconceicao.net

Fotografia de Bruno Conceição in brunoconceicao.net