(falta de) Respeito!

formaçãoHá doze anos, quando comecei a dar formação, tinha alguma noção do que me esperava. Sabia que não iria ser fácil, que teria de aprender à minha custa tudo aquilo que me deveriam ter ensinado em seis anos de curso, que seriam muitos os dias e momentos difíceis que teria de passar. Não me enganei em nada. Ninguém mencionara, todavia, um pormenor que se torna gigante e que consegue minar a motivação do formador mais exemplar: a falta de respeito. Existem duas manifestações da falta de respeito: a declarada e a mascarada. Com a declarada lida-se todos os dias, dentro de uma sala, com formandos que, por vezes, não merecem a oportunidade que lhes é dada uma e outra vez por um Estado ou por uma sociedade que fingem ter encontrado a solução perfeita para os seus problemas. Quem se pode culpar por isto? Os formandos, que tantas vezes são arrumados em cursos que nada têm que ver consigo? O Estado, que vive obcecado pela eterna necessidade de apresentar bons números à casa-mãe União Europeia? A segunda forma de falta de respeito é a mascarada. Esta é mais perversa, tanto mais que, sendo mascarada, facilmente se confunde. Esta é, também, a que mais me incomoda, por ser venenosa, extenuante e ter a capacidade de ir roendo o gosto pela profissão que escolhemos. É interessante verificar que todos aqueles que faltam ao respeito aos formadores não lhes pagando o valor que lhes devem, seja mensalmente ou noutro período previamente acordado, sublinham estridentemente a grande consideração que têm por eles. Mas, no final das contas, não lhes pagam. Não só não lhes pagam, como acham normal não lhes pagar e não abordam sequer o assunto. Se o incauto formador tem o atrevimento de perguntar pelo seu dinheiro, é um Deus nos acuda: formador que é formador não se importa com dinheiro, não tem contas para pagar, come, bebe, veste e calça a si próprio e aos seus o que a natureza oferece; ainda assim, apresenta-se ao trabalho, sorridente, feliz e agradecido por ter o privilégio de dar formação, se bem que de graça.

Sou formadora há doze anos e, por mais anos que passe nesta profissão, nunca, mas nunca mesmo, me vou calar perante uma entidade formadora que não paga aos profissionais dos quais depende a sua atividade. Esta é uma falta de respeito que insisto em desmascarar.

O tempo não cura tudo

foto mãeLembro-me muitas vezes da minha mãe. Hoje, talvez por ser o dia do meu aniversário, mais um pouco. Diz o povo que o tempo cura tudo. Terei de discordar. Há memórias que não se gastam com o passar do tempo; há cores que se mantêm igualmente vivas, há sons que continuam estridentes. Com frequência, volto a ter catorze anos, volto àquela tarde do dia 24 de agosto e fujo outra vez, correndo muito depressa. Nessa altura, recordo que odiei o mundo e a vida por me terem dado tão pouco tempo com a pessoa que, na altura, era o centro da minha vida. O que a vida me tem ensinado é que, apesar de esse episódio me ter marcado a ferros, não foi ele o mais importante, mas sim o que se lhe antecedeu. O pouco tempo que passei ao lado da minha mãe foi precioso, porque o que ela me ensinou construiu-me e suporta-me.

Hoje, no dia em que faço trinta e seis anos, gosto de pensar que trago em mim um pedacinho dela, e acredito que a minha filha, embora nunca a tenha conhecido, tem em si algo do que ela deixou na sua passagem por este mundo.

Ao contrário do que diz o povo, o tempo não curou tudo, e, embora tenha levado o som da sua voz, neste dia, sei que a minha mãe se está a rir e consigo ouvir nitidamente a sua gargalhada. E sorrio.

Em branco

mulher-sentada-239x300Seria hoje. Enquanto caminhava pelo corredor, pensava nas tarefas que, todos os dias, lhe ocupavam o ser e o sentir. Arrumar a cozinha; depois os quartos. Por que razão não os ensinara, nem sequer insistira, a pôr as coisas no devido lugar? Fez um esforço, mas não se conseguiu lembrar do porquê. As suas mãos, já em piloto automático, continuavam a dobrar, a separar, a abrir e a fechar gavetas e portas de armários.

Sentou-se por um instante. Observou à sua volta a casa impecavelmente limpa e arrumada. O silêncio. Seria hoje.

Não se conseguia lembrar do momento em que tinha começado a ficar em branco, em que a sua vida fora sendo apagada, ao ponto de lhe restar apenas aquela casa para cuidar. Ficou horas sentada. Passou a manhã; ouviu o carteiro tocar à campainha – não atendeu; ouviu os cães ladrarem em sinal de alerta, mas não se levantou. Apenas um pensamento contínuo: seria hoje.

Por fim, quando a luz da tarde iluminou a sala cheia dela própria, levantou-se. Sentiu um ligeiro sobressalto que a acordou daquele sono desperto. Uma contração no estômago seguida de um espasmo de alívio. Mecanicamente, retirou dos armários tachos e ingredientes.

Chegaram. Como sempre, tudo a postos, na mesa, esperava por eles. Ela, cuja presença era tão esperada como a das paredes que sustentam a casa, também lá estava, à espera.

Ao final da noite, na cama, embalada pelo som de um qualquer programa que, lá longe, alguém via, fechou os olhos. Não foi hoje, pensou angustiada. Logo de seguida o conforto: será amanhã. (Imagem de obra de Vicente do Rego Monteiro in www.bcb.gov.br)

«Pode ser que também consiga tocar o inalcançável.»

Respira fundo mais uma vez. O frio no estômago não a deixa concentrar. As inúmeras perguntas que lhe preenchem o pensamento e para as quais não tem respostas impedem que olhe para a frente com segurança. Pensa, mais uma vez, que como estava não podia ser; que a vida que vivia já não era a sua há muito tempo; que não poderia passar o resto da vida a fazer uma coisa que não a deixava feliz. Mas, ainda assim, não se conseguia tranquilizar. Tal como o Adamastor atormentou os navegadores, assim a atormenta o futuro. Pode ser que tudo se revele tão inofensivo quanto o próprio monstro, que era, afinal, produto de mentes demasiado pequenas para acreditar no impossível. Pode ser que também consiga tocar o inalcançável.

Respira fundo outra vez. O frio no estômago ainda lá está. Olha em frente, obriga as suas pernas a mexerem-se e dá o primeiro passo. Haverá certamente monstros à espreita, mas tem a certeza de que os vencerá.