Dou a palavra…

a Herberto Helder.

Se se pudesse, se um insecto exímio pudesse,
com o seu nome do princípio,
entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude
da cor e do exemplo,
se até ao coração da pedra e dele mesmo
devorasse a matéria exaltada,
por si e por ela e pelo nome primeiro ficaria
vivo: profundamente
num único nó de corpo,
e brilharia até se consumir
de si, todo — e a terra, suportaria ela
o poema disso?

HELDER, Herberto, Poesia Toda (1930) in poemário Assírio & Alvim 1998, 1998

Sábado é dia de…

desejar

Imagem de Leanne Ellis in la-la-laillustration.blogspot.com.br

DESEJAR! Já a pensar no ano de 2015…

 

«Há erro?», a solução

in www.idealista.pt

in www.idealista.pt

Desta vez, havia dois erros; o primeiro, logo no início da frase. Não deve dizer-se ou escrever-se, quando nos referimos a uma data, «a 20 de maio», mas sim «em 20 de maio»; a é uma preposição de movimento e, como tal, não deve ser usada neste contexto.

O segundo erro, era a falta de uma vírgula; deveria estar assim: «[…], em Sheffield», para limitar uma informação de lugar (o antigo complemento circunstancial de lugar).

Acertaram? Até ao próximo desafio!

Há erro?

encontrado em Pinterest, de myfotolog.tumblr.com

encontrado em Pinterest, de myfotolog.tumblr.com

Outro desafio, para terminar a semana: será que nesta frase há algum erro? Lembrem-se que a Letras num Papel faz revisão de textos; é mais necessária do que possam pensar…

«Nascido a 20 de Maio de 1944 em Sheffield, Inglaterra, viveu naquela cidade até aos 20 anos.»

in www.publico.pt, em 22/12/2014

Dou a palavra (especial Natal)…

a Fernando Pessoa. Bom Natal!

 

in http://sarahweal.blogspot.pt/

in http://sarahweal.blogspot.pt/

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que é ainda pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

PESSOA, Fernando, Poemas, in poemário Assírio & Alvim 1998, Assírio & Alvim, 1998

Sonhos.

Hoje, véspera de Natal, proponho «Sonhos.», porque esta época não é marcada pela felicidade de todos.

Lembrem-se que a Letras num Papel pode realizar os vossos próprios sonhos, desde que tenham palavras à mistura! Falem comigo! Boa Consoada!

de Alessandro Gottardo (aka SHOUT), em mymodernmet.com

de Alessandro Gottardo (aka SHOUT), em mymodernmet.com

Pôs 3dl de leite com 1,5dl de óleo, a casca de limão e o sal, num tacho, a ferver. Pensou noutros natais que já vivera ali em casa. Sorriu quando se lembrou da expressão do Pedro, ainda bebé, ao ver, pela primeira vez, a árvore de Natal cheia de luzes, fitas e bolas coloridas; ou daquela vez em que a Joana correu, assustada, para o seu colo mal o Pai Natal entrou na sala, e nem o facto de ser ele o portador dos tão desejados presentes a fez mover-se dos seus braços. Quando o leite e o óleo já ferviam, juntou 250gr de farinha e mexeu energicamente com a velha colher de pau que tantas vezes usara para preparar as consoadas. Pensou que talvez fosse melhor não estar a fazer doces, mas, a verdade, é que a ajudava a esquecer-se da vida ou, se calhar, a lembrar-se. Pareceu-lhe ouvir a porta da rua a bater. Levantou a cabeça em sinal de alerta, mas não ouviu passos. Espreitou para o corredor, nada. Deveria ter sido o vizinho a chegar. No momento em que a massa já se descolava do tacho, parou de a mexer; pôs o recipiente na bancada da cozinha, havia que deixar arrefecer. Olhou para a fotografia do Miguel, acompanhado do avô e dela própria; imaginou como seriam as suas feições, agora. Como seria bom estarem todos juntos, outra vez! Reparou no relógio: marcava as 18h30. Eram 18h30 do dia 24 de dezembro. Sentou-se, à espera. Pouco depois, verificou que a massa já estava fria; juntou-lhe seis ovos inteiros e mexeu tudo muito bem. Tinha posto, entretanto, óleo ao lume para fritar as colheradas de massa, que ia deitando com a segurança própria de quem já repetira esta tarefa mais vezes do que aquelas de que se lembrava. Eram quase 20h. Polvilhou os sonhos de Natal com açúcar e canela. Levou o prato para a mesa, que estava posta para uma pessoa, para ela própria. Sentou-se. Olhou em volta e a quietude apertou-lhe o peito. Estava só com os seus sonhos. E chorou.

Para sempre (dedicatória)

Dia romântico aqui na Letras num Papel… Digam lá se esta dedicatória não faria as delícias de muitos enamorados? Contactem-nos e faremos uma personalizada, para vós! Boa semana.

 

«O Beijo do Hotel de Ville», Robert Doisneau, 1950

«O Beijo do Hotel de Ville», Robert Doisneau, 1950

Para mim, tu és nada mais do que tudo. E, mesmo sabendo que vais achar que tudo é demais, não posso dizer que sejas menos do que isso.

Contigo, eu nunca poderia pensar em menos do que para sempre. E, mesmo sabendo que vais achar que para sempre é tempo a mais, não posso dizer que queira menos do que isso.

Separados, somos só um, que nunca chega para nada; juntos, somos tudo e para sempre.

«Há erro?, a solução

in www.idealista.pt

in www.idealista.pt

Cá está a solução para o desafio de hoje. Na realidade, havia dois erros, a saber, o advérbio onde só deve ser empregue quando nos referimos a lugares físicos. Assim, e tendo em conta que o referente «grupo» não é um sítio, a frase poderia estar da seguinte forma:

«[…], em que / no qual corre sangue português – e do qual escorre sangue por Alá.»

Por outro lado, o que, na frase, surge com o papel de travessão, na verdade, trata-se de um hífen, já que o travessão é um pouco mais largo: . Parece um preciosismo, mas trata-se também de uma incorreção que deve ser acautelada.

Há erro?

encontrado em Pinterest, de myfotolog.tumblr.com

encontrado em Pinterest, de myfotolog.tumblr.com

Bom dia! Nesta segunda-feira, outro desafio para vós! Na frase seguinte, detetam algum erro? Olhem que há! Ao final da tarde, revelo a incorreção. Lembrem-se, entretanto, que a Letras num Papel também faz revisão de textos. Peçam um orçamento. Até logo!

«[…]Autoridades e especialistas em terrorismo estão alerta sobre este pequeno mas perigoso grupo, onde corre sangue português – e de onde escorre sangue por Alá.»

 in expresso.sapo.pt de 18/12/2014

 

 

Dou a palavra…

… a Fernando Pessoa. Bom domingo!

Natal

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: O Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

PESSOA, Fernando, Ficções do Interlúdio (edição de Fernando Cabral Martins) in Poemário Fernando Pessoa 2009, Assírio & Alvim