Dou a palavra…

a ALMEIDA GARRETT. Além de dramaturgo, romancista, poeta e revolucionário social e literário, Almeida Garrett prestou um enorme serviço à literatura nacional compilando composições populares que muito contribuíram para a nossa riqueza cultural. Do Romanceiro, fica aqui um excerto da muito conhecida Nau Catrineta.

«Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de um ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
[…]»

in GARRETT, Almeida, Romanceiro, Círculo de Leitores, 1997.

Sábado é dia de…

Fotografia in www.abduzeedo.com, via Pinterest (Melissa De Roeck)

Fotografia in www.abduzeedo.com, via Pinterest (Melissa De Roeck)

CONSTRUIR CASTELOS NO AR… Num dia que é, supostamente, de reflexão, todos temos o direito de sonhar com o nosso mundo perfeito, nem que seja lá em cima nas nuvens. Frágil, mágico e só nosso. Bom fim de semana.

Palavras Cruzadas

Imagem encontrada em www.flickr.com, via Pinterest (Agência Eiffel)

Imagem encontrada em www.flickr.com, via Pinterest (Agência Eiffel)

Fazia palavras cruzadas. Vivia para isso. Para escrever cada letra; para as entrelaçar, formando sílabas que, por sua vez, se transformavam em palavras.

Todos os dias, muito cedo, levantava-se, abria o estore da janela do quarto e começava a sua deambulação pelo mundo das palavras. Desfilavam pela sua mente como modelos na passarela: umas compridas e intrincadas, outras breves e suaves como o pousar de uma folha no chão por alturas do outono. À medida que as palavras lhe tomavam os pensamentos, ia pronunciando cada um dos sons que as compunham, construindo, inconscientemente, uma ladainha que o acompanhava enquanto se vestia e se preparava para sair.

A viagem que, cada dia, levava a cabo era, porém, breve. Em passos medidos e postura rígida, seguia até ao quiosque da esquina onde comprava alguns jornais. Não sabia com exatidão o ano em que estava, muito menos o mês ou o dia da semana. Não lia uma linha sobre a atualidade que enchia as páginas de todas aquelas publicações. Não lhe interessava.

De novo em casa, começava a folhear cada jornal, de trás para a frente, parando, em todos, na mesma página: a das palavras cruzadas. Começava, então, o seu dia. Novas palavras, velhas palavras suas conhecidas, palavras isoladas que absorvia com sofreguidão.

«O que aponta o início da manhã». Mal leu a indicação, uma palavra cresceu perante os seus olhos, ganhou rosto, corpo, cheiro. Era ela que estava, passado tanto tempo, à sua frente. Sorria-lhe da mesma forma que o tinha feito na última vez em que se viram. Aurora tornara-se, de novo, real e olhava para ele, esperando que, finalmente, pronunciasse uma frase. A frase. Mas, outra vez, as palavras certas lhe fugiam; não era capaz de escolher quais as mais belas, quais as mais claras, quais as mais certas, para lhe dizer que a amava. Outra vez, viu o seu olhar esmorecer. As palavras a desfilarem à sua frente. Outra vez, a viu preparar-se para ir. As palavras desordenadas à sua frente. Outra vez, ela se virou. Tantas palavras por onde escolher. Outra vez, ela se foi, equilibrando-se em passos incertos. Tantas palavras. Outra vez, ficou sozinho. Amo-te. Conseguiu, enfim, pronunciar. E, outra vez, fê-lo tarde de mais.

Dou a palavra…

a OSCAR WILDE. Hoje, é O Retrato de Dorian Gray que nos faz companhia. Uma história que é, de facto, obrigatória. Bom domingo.

«Haveria, assim, um autêntico prazer em espiar a modificação operada nas suas feições. Poderia seguir o seu pensamento até os seus mais recônditos refolhos. Este retrato seria para ele o mais mágico dos espelhos. Assim como lhe revelara o aspecto exterior do seu corpo, assim lhe revelaria a intimidade da sua alma. E, quando sobre o retrato caísse o inverno, ele continuaria gozando os esplendores da primavera e do verão.

Quando do rosto do retrato se houvesse esvaído todo o sangue, deixando atrás de si uma lívida máscara de giz com olhos plúmbeos, ele conservaria o fulgor radioso da adolescência. Não murcharia nem uma só flor da sua beleza. Não afrouxaria uma só pulsação da sua vida. Semelhantemente aos deuses dos Gregos, seria forte, leve e ledo. Que importava o que acontecesse à imagem pintada na tela? Ele ficaria indemne. Era tudo.

Sorriu, colocou de novo o biombo em frente do retrato e dirigiu-se para o quarto de dormir, onde já o esperava o criado. Uma hora depois achava-se na Ópera. Sobre a sua cadeira apoiava-se Lord Henry.»

in WILDE, Oscar, O Retrato de Dorian Gray, «Colecção Ficções», 3.ª edição, Editorial Estampa

Outono

Fotografia encontrada em https://estibabalia.wordpress.com, via Pinterest (Ellen Graves)

Fotografia encontrada em https://estibabalia.wordpress.com, via Pinterest (Ellen Graves)

Um dia, olhou pela janela e deu-se conta de que já era outono. Tentou calcular há quanto tempo não se assomava a um vidro para poder ver o que se passava lá fora. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão. Havia muito tempo, certamente, e saber isso bastava-lhe. Às vezes acontecia-lhe olhar à sua volta e não entender o que realmente se passava. Talvez tivesse sido essa a razão de ter deixado de sair de casa. Talvez tivesse sido por isso que, para ela, o mundo era, agora, um retângulo de vidro que se abria de vez em quando à sua frente. Observando as árvores a desfazerem-se das suas folhas, teve saudades de respirar o ar frio de uma manhã de outono; aquele frio que nos entra pelas narinas e pelos pulmões dentro, acordando cada célula, cada órgão do nosso corpo. Sempre tinha preferido o frio ao calor; sempre a fizera sentir-se viva. No entanto, até onde a sua memória alcançava, não conseguia lembrar-se de um momento em que um arrepio de frio lhe tivesse agitado as entranhas.

Alguém entrou e se dirigiu a ela. Olhou-a com a simpatia com que se olha um perfeito desconhecido na rua que nos pergunta as horas. Suavemente, aquela pessoa agarrou-lhe o braço e conduziu-a a um cadeirão onde, à sua espera, estava uma manta com a qual as suas pernas foram cobertas. Perguntou-lhe se tinha frio. «Não, não tenho frio, obrigada.» Depois, aquela mulher chamou-lhe «mãe». Observou-a e tentou lembrar-se. Afinal, ninguém esquece que foi mãe; que é mãe de alguém. Mas apenas se conseguiu lembrar das folhas a caírem lá fora e de que era outono. Sorriu. Lembrou-se também dos arrepios. Como gostaria de voltar a sentir um arrepio de frio que a fizesse saborear novamente a vida.

Dou a palavra…

a F. SCOTT FITZGERALD. The Great Gatsby é um dos grandes romances do século XX; é dele que vou deixar um excerto, no original. Espero que vos incite à leitura integral desta história apaixonante. Bom domingo!

«I believe that on the first night I went to Gatsby’s house I was one of the few guests who had actually been invited. People were not invited — they went there. They got into automobiles wich bore them out to Long Island, and somehow they ended up at Gatsby’s door. Once there they were introduced by somebody who knew Gatsby , and after that they conduced themselves acording to the rules of behaviour associated with an amusement park. Sometimes they came and went without having met Gatsby at all, came for the party with a simplicity of heart that was its own ticket of admission.»

in FITZGERALD, F. Scott, The Great Gatsby, Penguin Books, 1992

Sábado é dia de…

Fotografia de Thibaud Chosson in https://500px.com, via Pinterest (Yvonne Feddema)

Fotografia de Thibaud Chosson in https://500px.com, via Pinterest (Yvonne Feddema)

APROVEITAR… O último fim de semana de verão exige ser aproveitado da melhor forma, para não nos arrependermos, durante o inverno, dos raios de sol que não apanhámos! Bom fim de semana.

Dou a palavra…

a NINA SIMONE. Sempre um prazer ouvir esta voz única… Feeling Good! Bom domingo.

 

Feeling Good

Birds flyin’ high, you know how I feel
Sun in the sky, you know how I feel
Breeze driftin’ on by, you know how I feel
It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me.
Yeah, it’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me, ooooooooh…
And I’m feelin’ good.

Fish in the sea, you know how I feel
River runnin’ free, you know how I feel
Blossom on the tree, you know how I feel
It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me,
And I’m feelin’ good

Dragonfly out in the sun, you know what I mean, don’t you know,
Butterflies all havin’ fun, you know what I mean.
Sleep in peace when day is done: that’s what I mean,
And this old world is a new world and a bold world for me…

Stars when you shine, you know how I feel
Scent of the pine, you know how I feel
Yeah, freedom is mine, and I know how I feel..
It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me
[scat]
And I’m feelin’… good.

in www.azlyrics.com

Sábado é dia de…

Fotografia in www.indulgy.com (via Pinterest, Sara Bowles)

Fotografia in www.indulgy.com (via Pinterest, Sara Bowles)

REUNIÕES! Mas não daquelas de trabalho, por vezes, infindas; das outras, com os amigos, em que as conversas se estendem durante horas, que nos sabem sempre a pouco… Bom fim de semana!

Meias de vidro

in www.tumblr.com (via Pinterest, Airem Widiamurni)

in www.tumblr.com (via Pinterest, Airem Widiamurni)

Estava a tomar duche, quando ouviu o barulho do que lhe pareceu um serviço inteiro de jantar a cair no chão. Não foi preciso muito tempo para perceber, ainda sem ter visto o estrago, que tinha sido o gato a fazer das suas. Enrolada na toalha, correu no sentido do barulho que tinha ouvido – o quarto. E eis que ali estava o que já havia antecipado: o gato tinha derrubado as suas meias de vidro. E, agora, o que iria vestir? Eram as últimas! O autor do desastre encontrava-se à janela a observar um gafanhoto que, na varanda, não tardaria a saltar para o vazio. Lambia-se lentamente, como fazem os gatos, tomando o seu próprio banho; passou uma pata pelo focinho, como que para parar uma súbita comichão no nariz.

Lembrou-se de procurar na caixa de cartão, no canto do quarto, outras meias; hoje, teria de se contentar com umas de musse. Mas não, dentro da caixa, já só havia dois guarda-chuvas de chocolate, que decidiu não comer, ainda que lhe apetecesse. Com os nervos em franja, e ainda sem saber como iria sair de casa sem meias, tomou um comprimido para lhe aliviar a dor de cabeça…