Contos

A encruzilhada*

«Hum, que situação!» Não sabia o que fazer. Ali estava, longe de casa, tão longe que já não seria possível voltar para trás. Por outro lado, já não estava tão certa de querer ir.

A noite estava amena e, de repente, apeteceu-lhe meter-se no mar, sentir a água fria na pele, gozar o sentimento de saber que, pouco depois, teria à sua volta uma toalha suave que lhe aqueceria até a alma. Conseguia inclusive visualizar essa toalha; aquela vermelha como uma maçã que, ao toque, parecia de veludo. Mas ali estava, naquela encruzilhada, sem saber se ir e, se fosse, para onde iria. Já os olhos se lhe enchiam de lágrimas e teve inveja pura daqueles que, àquela hora, estavam nas suas camas a dormir, tranquilamente.

Ela não, ela ali estava, tremendo e temendo por tudo o que pensava poder vir a acontecer-lhe, ou talvez por tudo o que, por fim, não acontecesse. «Afinal,» tentou pensar, «o que se pode passar de tão mau?» Ouviu, lá fundo na sua cabeça, o que lhe pareceu ser a voz da mãe, «O amor, minha filha, o amor.»

Olhou para o carreiro que levava até à praia e impeliu-se a continuar o caminho. Fez por apagar da memória as palavras sempre dramáticas e a rebentar de desgraça que a mãe dirigia ao amor. Muitas vezes, teve vontade de lhe perguntar de quem gostara tanto e por que razão essa pessoa lhe fizera tanto mal. Pensava também no seu pai; na tristeza que deveria sentir de cada vez que a mãe proferia tais impropérios, certo de que a sua mulher não o amava.

Quase a chegar ao fim da vereda, conseguia ouvir nitidamente as ondas a golpearem a areia com força; ouvia ainda, muito ténue, um fio de música. Virou-se, dando uma volta sobre si mesma, mas não viu ninguém nem percebeu nada estranho na praia, para além da sua própria presença. Porém, a música, lá longe, continuava. Ou estaria a ouvir coisas?

«Boa noite! Sejas bem aparecida!»

Depois do imenso solavanco que o seu estômago deu, conseguiu acalmar-se e sorriu, aliviada por não ter feito todo aquele percurso em vão. Lembrou-se outra vez, enquanto olhava para ele, das palavras da mãe sobre o amor. Não concebia que algum mal lhe pudesse acontecer por gostar de alguém e desejaria poder explicar-lhe que deixar que outra pessoa nos assuma como o centro do seu mundo pode ser a melhor coisa da vida. Apesar da angústia que quase a convenceu a voltar para trás, não se arrependeu nem um segundo da escolha que fizera e do que aconteceu naquela praia.

Não sabia por que razão se tinha lembrado daquela noite e porque a tinha revisto, na sua cabeça, como se de um filme se tratasse, recordando cada som, cada sensação, cada palavra pensada. Sentada no sofá, observava um copo vazio com uma atenção despropositada, ou talvez nem o estivesse a ver e simplesmente deixara cair o olhar nele, como poderia ter sido noutro sítio qualquer. Na sala vazia, ainda ressoava o que ele lhe dissera: que se ia embora; que já não podia continuar a fingir; que a culpa não era dela; que, afinal, o amor que duraria até que a morte os separasse, se esgotara antes de a morte ter chegado.

Antecipou a conversa que, mais cedo ou mais tarde, teria de ter com a sua mãe. Quis ter a coragem suficiente para contrapor cada argumento que ela utilizasse, mas achou que não iria conseguir. Como se consegue convencer alguém do poder de algo que acabou de sucumbir? Como podia, ela própria, continuar a acreditar que era possível, quando a impossibilidade se personificou à sua frente e saiu pela porta para não mais voltar?

«Eu bem te avisei. Mas tu e os teus devaneios de filme romântico… Agora aí estás, sem saberes como te levantar! O que te resta depois disto? Diz-me!»

«O amor, mãe, o amor.»

Ana Galhanas

* Conto publicado em 9 de abril de 2015 no Quem Conta um Conto.

O Fabricante de Corações*

                Fabricava corações. Verdadeiros corações, com aurículos e ventrículos e veias e artérias. Pequenos pontos apenas, no início, via, depois, como cresciam e como iam adquirindo a forma tosca e bruta de um músculo, nada parecido com as imagens românticas e estilizadas que enfeitam roupa, postais, paredes e tudo o mais que se consiga enfiar nesse cliché tão gasto que diz que o coração é o sítio onde se guardam os sentimentos. Numa era em que o homem se quer libertar da mortalidade a todo o custo, fabricar corações aproximava-o bastante daquilo que, durante muito tempo, apenas o divino conseguia fazer: dar vida quando esta parecia já não ter por onde crescer. Muitas vezes, a palavra «milagre» surgia nas conversas com aqueles que, dentro de si, tinham um coração feito por ele. Ei-lo, por isso, deificado, mais próximo do que nunca de um Olimpo criado por si e para si.

Conheceu-a numa manhã metálica de inverno. A chuva batia com força no vidro da enorme janela do seu quarto. Os seus cabelos muito negros contrastavam com o branco perfeito e higiénico dos lençóis; tinha os olhos fechados e a expressão serena. Antes de começar o coração de alguém, gostava de se apresentar, satisfazia-o que a pessoa para quem construía a porta de entrada para a sua nova vida o conhecesse e lhe agradecesse, para sempre, tê-lo feito. Porém, quando ela abriu os olhos e o encarou, a única coisa que queria dela não era gratidão, mas sim que ela lhe permitisse estar ao seu lado até o seu próprio coração colapsar.

Pôs naquele coração o que jamais havia posto em nenhum outro, o seu. Tomou redobrada atenção a todos os pormenores; reviu o modelo dezenas de vezes antes de dar a ordem para que a máquina o fizesse e não saiu de perto do aparelho enquanto não surgiu à sua frente o órgão que iria mudar a sua vida. Carregou-o com o cuidado que se presta a um bebé e, pela primeira vez, saíram da sua boca palavras de súplica enquanto a operação decorria. Precisava que ela sobrevivesse, porque não tinha a certeza de ser capaz de continuar se ela não estivesse; como era possível que ele, que sempre estivera acima da perigosa linha do amor, se rendesse agora a esse sentimento daninho que nos vai minando até nos privar de toda a independência? Mas assim era. Da forma mais total e absoluta, tinha-se deixado enlear e o seu coração, que antes apenas bombeava sangue, batia mais rapidamente sempre que a via.

Foram felizes. O fabricante de corações aprendeu que ser homem pode ser muito melhor do que ser deus, porque só enquanto homem teve a oportunidade de acordar ao seu lado todos os dias.

E um dia terminou. Assim, sem uma discussão, sem uma porta a bater, sem um grito de exasperação. Acabou silenciosamente. Chegou a casa e lá estava ela, em cada objeto, em cada flor escolhida para pôr na jarra, em cada gaveta vazia que deixou para trás. Estava, principalmente, nele próprio e na mudança que havia operado em si. Não procurou uma explicação e não a procurou a ela, porque, no fundo, sempre soube que aquela existência era limitada; tinha ouvido que a felicidade nada mais era do que momentos e a sua já durava há demasiado tempo.

Continuou a fabricar corações, algo que fazia melhor do que ninguém. Muitas vezes, na solidão do seu trabalho, fechava os olhos para a conseguir ver melhor, reconstituindo-lhe os traços até a ter vívida diante de si; nunca logrou desfazer a dor que, dentro do peito, acompanhava estes momentos e desconfiou que, talvez, nesse músculo feio e inquieto residisse o mais sublime dos sentimentos.

Ana Galhanas

* Conto publicado em 14 de maio de 2015 no Quem Conta um Conto.