Linguagem inclusiva, mas poucochinho…

«Portugueses e portuguesas», «cidadãos e cidadãs»… Chamam-lhe linguagem inclusiva (http://www.igualdade.gov.pt/IMAGES/STORIES/DOCUMENTOS/DOCUMENTACAO/PUBLICACOES/LINGUAGEM.PDF) e ocupa muito do tempo de inúmeras instituições por esse mundo fora. No entanto, e referindo-me em concreto ao que me incomoda, este tipo de linguagem poderia também ser denominada de a mais nova forma de assassinar a gramática portuguesa de uma maneira até simpática e parecendo que se importam com os direitos das mulheres. A pergunta é simples: de que forma é que alguém se sente mais incluído na vida social e/ou política deste país pelo simples facto de, nos discursos, documentos oficiais, etc., se invocarem os destinatários no género masculino e também no feminino? É que, além de tudo, a gramática do português é muito clara neste aspeto: referindo-se a um coletivo, bastará haver um membro do sexo masculino para o nome assumir esse mesmo género.

Enquanto portuguesa e cidadã e tudo o mais que queiram no género feminino, sinto-me insultada de cada vez que este vocativo é pronunciado, sendo que em tempo de campanhas, é-o até à exaustão. E sinto-me insultada, porque, enquanto portuguesa, enquanto cidadã e, principalmente, enquanto mulher, gostaria que os nossos políticos, os nossos «pensadores sociais» ou lá como se chamem os que têm estes rasgos profundos de inteligência, a preocuparem-se com a inclusão das mulheres, o fizessem de verdade, olhando para os seus verdadeiros problemas: para a desigualdade de tratamento no local de trabalho, para a diferença de salários, para os obstáculos que têm de enfrentar quando há que conciliar carreira e família, para…, enfim, para a vida real!

É certo que a língua muda e que deve acompanhar o evoluir dos tempos, mas há tanto a fazer pela inclusão das mulheres (e não só), que todo este aparato me parece obsoleto e profundamente oco.

(falta de) Respeito!

formaçãoHá doze anos, quando comecei a dar formação, tinha alguma noção do que me esperava. Sabia que não iria ser fácil, que teria de aprender à minha custa tudo aquilo que me deveriam ter ensinado em seis anos de curso, que seriam muitos os dias e momentos difíceis que teria de passar. Não me enganei em nada. Ninguém mencionara, todavia, um pormenor que se torna gigante e que consegue minar a motivação do formador mais exemplar: a falta de respeito. Existem duas manifestações da falta de respeito: a declarada e a mascarada. Com a declarada lida-se todos os dias, dentro de uma sala, com formandos que, por vezes, não merecem a oportunidade que lhes é dada uma e outra vez por um Estado ou por uma sociedade que fingem ter encontrado a solução perfeita para os seus problemas. Quem se pode culpar por isto? Os formandos, que tantas vezes são arrumados em cursos que nada têm que ver consigo? O Estado, que vive obcecado pela eterna necessidade de apresentar bons números à casa-mãe União Europeia? A segunda forma de falta de respeito é a mascarada. Esta é mais perversa, tanto mais que, sendo mascarada, facilmente se confunde. Esta é, também, a que mais me incomoda, por ser venenosa, extenuante e ter a capacidade de ir roendo o gosto pela profissão que escolhemos. É interessante verificar que todos aqueles que faltam ao respeito aos formadores não lhes pagando o valor que lhes devem, seja mensalmente ou noutro período previamente acordado, sublinham estridentemente a grande consideração que têm por eles. Mas, no final das contas, não lhes pagam. Não só não lhes pagam, como acham normal não lhes pagar e não abordam sequer o assunto. Se o incauto formador tem o atrevimento de perguntar pelo seu dinheiro, é um Deus nos acuda: formador que é formador não se importa com dinheiro, não tem contas para pagar, come, bebe, veste e calça a si próprio e aos seus o que a natureza oferece; ainda assim, apresenta-se ao trabalho, sorridente, feliz e agradecido por ter o privilégio de dar formação, se bem que de graça.

Sou formadora há doze anos e, por mais anos que passe nesta profissão, nunca, mas nunca mesmo, me vou calar perante uma entidade formadora que não paga aos profissionais dos quais depende a sua atividade. Esta é uma falta de respeito que insisto em desmascarar.