O relógio

relógio_2016Olhava para o relógio como se, em qualquer momento, os ponteiros pudessem fugir do caminho que infinitamente trilhavam. Olhava para o relógio com a ansiedade de quem espera que a vida possa ter ainda alguma coisa para lhe oferecer. Olhava e via que podia ser; que o momento em que os ponteiros se encontrassem, finalmente, junto ao número 12, sobranceiro, cheio de si e de desejos de milhões de pessoas, seria, para ela o recomeço de tudo, o fim e, simultâneamente, o princípio, a morte e a vida numa única existência. Olhava para o relógio e acreditava. Começava mais um ano e tinha de acreditar.

Sonhos.

Recupero um conto publicado o ano passado, por esta mesma altura. O tema, infelizmente, não é novo e, apesar dos muitos anúncios e menções ao mesmo, dos inúmeros «likes» no Facebook e das abundantes palavras de comoção, não há solução à vista. Assim, deixo-vos, outra vez, com «Sonhos», esperando que um dia, seja ou não de Natal, deixe de ser um descrição da realidade que muitos vivem e passe a ser, apenas, um exercício de imaginação.

sonhosPôs 3dl de leite com 1,5dl de óleo, a casca de limão e o sal, num tacho, a ferver. Pensou noutros natais que já vivera ali em casa. Sorriu quando se lembrou da expressão do Pedro, ainda bebé, ao ver, pela primeira vez, a árvore de Natal cheia de luzes, fitas e bolas coloridas; ou daquela vez em que a Joana correu, assustada, para o seu colo mal o Pai Natal entrou na sala, e nem o facto de ser ele o portador dos tão desejados presentes a fez mover-se dos seus braços. Quando o leite e o óleo já ferviam, juntou 250gr de farinha e mexeu energicamente com a velha colher de pau que tantas vezes usara para preparar as consoadas. Pensou que talvez fosse melhor não estar a fazer doces, mas, a verdade, é que a ajudava a esquecer-se da vida ou, se calhar, a lembrar-se. Pareceu-lhe ouvir a porta da rua a bater. Levantou a cabeça em sinal de alerta, mas não ouviu passos. Espreitou para o corredor, nada. Deveria ter sido o vizinho a chegar. No momento em que a massa já se descolava do tacho, parou de a mexer; pôs o recipiente na bancada da cozinha, havia que deixar arrefecer. Olhou para a fotografia do Miguel, acompanhado do avô e dela própria; imaginou como seriam as suas feições, agora. Como seria bom estarem todos juntos, outra vez! Reparou no relógio: marcava as 18h30. Eram 18h30 do dia 24 de dezembro. Sentou-se, à espera. Pouco depois, verificou que a massa já estava fria; juntou-lhe seis ovos inteiros e mexeu tudo muito bem. Tinha posto, entretanto, óleo ao lume para fritar as colheradas de massa, que ia deitando com a segurança própria de quem já repetira esta tarefa mais vezes do que aquelas de que se lembrava. Eram quase 20h. Polvilhou os sonhos de Natal com açúcar e canela. Levou o prato para a mesa, que estava posta para uma pessoa, para ela própria. Sentou-se. Olhou em volta e a quietude apertou-lhe o peito. Estava só com os seus sonhos. E chorou.

 

Dou a palavra (ou quase)…

Fotografia de Jason Idzerda in www.designbeep.com

Fotografia de Jason Idzerda in www.designbeep.com

Neste domingo, o «Dou a palavra…» apresenta-se um pouco diferente. Quando pensava no que ia publicar hoje, apenas surgiam imagens e não propriamente palavras. Assim, decidi fazer-me a vontade. Uma estação e inúmeros sentimentos e sensações capturados numa imagem, num momento, num tempo que para por um segundo. Uma estrada que se transforma em espelho, porque os espelhos são tudo aquilo que mostra o que de mais belo, ou de mais horrível, cada ser tem dentro de si. E não temos outro remédio, por mais que o evitemos, a não ser percorrer esse caminho e olharmos para o que ele reflete uma e outra vez. Bom domingo.

Por um pedaço do mundo

Fotografia de Jaroslaw Datta in www.bleaq.com

Fotografia de Jaroslaw Datta in www.bleaq.com

Por um pedaço do mundo, arrasa-se o mundo. A natureza do ser humano revolve-se, emerge, explode dentro de mim. Por um pedaço de ti, por um pedaço da tua vida, por um pedaço de nós, sou capaz de tudo, até de te destruir. Destruir-te para te conquistar. Para te ter para mim. Ainda que destruído. Ainda que ferido de morte. Serás para mim. De mim. Meu. E, depois de te arrasar, pegarei nos teus pedaços e voltarei a juntá-los e, então, reconstruirei  o que destruí e sei que entenderás a minha razão e não te importarás com o que passou, com o que te fiz passar. Perceberás que não pode haver paz se antes não tiver havido guerra. Sim. Perceberás. Por um pedaço do mundo, arrasa-se o mundo. Mas não importa, porque, por um pedaço de nós, invento outro mundo. O nosso mundo. Por um pedaço de ti, faço o que for preciso. E entenderás. Entenderás.

Palavras Cruzadas

Imagem encontrada em www.flickr.com, via Pinterest (Agência Eiffel)

Imagem encontrada em www.flickr.com, via Pinterest (Agência Eiffel)

Fazia palavras cruzadas. Vivia para isso. Para escrever cada letra; para as entrelaçar, formando sílabas que, por sua vez, se transformavam em palavras.

Todos os dias, muito cedo, levantava-se, abria o estore da janela do quarto e começava a sua deambulação pelo mundo das palavras. Desfilavam pela sua mente como modelos na passarela: umas compridas e intrincadas, outras breves e suaves como o pousar de uma folha no chão por alturas do outono. À medida que as palavras lhe tomavam os pensamentos, ia pronunciando cada um dos sons que as compunham, construindo, inconscientemente, uma ladainha que o acompanhava enquanto se vestia e se preparava para sair.

A viagem que, cada dia, levava a cabo era, porém, breve. Em passos medidos e postura rígida, seguia até ao quiosque da esquina onde comprava alguns jornais. Não sabia com exatidão o ano em que estava, muito menos o mês ou o dia da semana. Não lia uma linha sobre a atualidade que enchia as páginas de todas aquelas publicações. Não lhe interessava.

De novo em casa, começava a folhear cada jornal, de trás para a frente, parando, em todos, na mesma página: a das palavras cruzadas. Começava, então, o seu dia. Novas palavras, velhas palavras suas conhecidas, palavras isoladas que absorvia com sofreguidão.

«O que aponta o início da manhã». Mal leu a indicação, uma palavra cresceu perante os seus olhos, ganhou rosto, corpo, cheiro. Era ela que estava, passado tanto tempo, à sua frente. Sorria-lhe da mesma forma que o tinha feito na última vez em que se viram. Aurora tornara-se, de novo, real e olhava para ele, esperando que, finalmente, pronunciasse uma frase. A frase. Mas, outra vez, as palavras certas lhe fugiam; não era capaz de escolher quais as mais belas, quais as mais claras, quais as mais certas, para lhe dizer que a amava. Outra vez, viu o seu olhar esmorecer. As palavras a desfilarem à sua frente. Outra vez, a viu preparar-se para ir. As palavras desordenadas à sua frente. Outra vez, ela se virou. Tantas palavras por onde escolher. Outra vez, ela se foi, equilibrando-se em passos incertos. Tantas palavras. Outra vez, ficou sozinho. Amo-te. Conseguiu, enfim, pronunciar. E, outra vez, fê-lo tarde de mais.

Outono

Fotografia encontrada em https://estibabalia.wordpress.com, via Pinterest (Ellen Graves)

Fotografia encontrada em https://estibabalia.wordpress.com, via Pinterest (Ellen Graves)

Um dia, olhou pela janela e deu-se conta de que já era outono. Tentou calcular há quanto tempo não se assomava a um vidro para poder ver o que se passava lá fora. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão. Havia muito tempo, certamente, e saber isso bastava-lhe. Às vezes acontecia-lhe olhar à sua volta e não entender o que realmente se passava. Talvez tivesse sido essa a razão de ter deixado de sair de casa. Talvez tivesse sido por isso que, para ela, o mundo era, agora, um retângulo de vidro que se abria de vez em quando à sua frente. Observando as árvores a desfazerem-se das suas folhas, teve saudades de respirar o ar frio de uma manhã de outono; aquele frio que nos entra pelas narinas e pelos pulmões dentro, acordando cada célula, cada órgão do nosso corpo. Sempre tinha preferido o frio ao calor; sempre a fizera sentir-se viva. No entanto, até onde a sua memória alcançava, não conseguia lembrar-se de um momento em que um arrepio de frio lhe tivesse agitado as entranhas.

Alguém entrou e se dirigiu a ela. Olhou-a com a simpatia com que se olha um perfeito desconhecido na rua que nos pergunta as horas. Suavemente, aquela pessoa agarrou-lhe o braço e conduziu-a a um cadeirão onde, à sua espera, estava uma manta com a qual as suas pernas foram cobertas. Perguntou-lhe se tinha frio. «Não, não tenho frio, obrigada.» Depois, aquela mulher chamou-lhe «mãe». Observou-a e tentou lembrar-se. Afinal, ninguém esquece que foi mãe; que é mãe de alguém. Mas apenas se conseguiu lembrar das folhas a caírem lá fora e de que era outono. Sorriu. Lembrou-se também dos arrepios. Como gostaria de voltar a sentir um arrepio de frio que a fizesse saborear novamente a vida.

Meias de vidro

in www.tumblr.com (via Pinterest, Airem Widiamurni)

in www.tumblr.com (via Pinterest, Airem Widiamurni)

Estava a tomar duche, quando ouviu o barulho do que lhe pareceu um serviço inteiro de jantar a cair no chão. Não foi preciso muito tempo para perceber, ainda sem ter visto o estrago, que tinha sido o gato a fazer das suas. Enrolada na toalha, correu no sentido do barulho que tinha ouvido – o quarto. E eis que ali estava o que já havia antecipado: o gato tinha derrubado as suas meias de vidro. E, agora, o que iria vestir? Eram as últimas! O autor do desastre encontrava-se à janela a observar um gafanhoto que, na varanda, não tardaria a saltar para o vazio. Lambia-se lentamente, como fazem os gatos, tomando o seu próprio banho; passou uma pata pelo focinho, como que para parar uma súbita comichão no nariz.

Lembrou-se de procurar na caixa de cartão, no canto do quarto, outras meias; hoje, teria de se contentar com umas de musse. Mas não, dentro da caixa, já só havia dois guarda-chuvas de chocolate, que decidiu não comer, ainda que lhe apetecesse. Com os nervos em franja, e ainda sem saber como iria sair de casa sem meias, tomou um comprimido para lhe aliviar a dor de cabeça…

A casa

Fotografia de Mercuro B. Cotto in www.mymodernmet.com, via Pinterest (Joie Ling)

Fotografia de Mercuro B. Cotto in www.mymodernmet.com, via Pinterest (Joie Ling)

Tinha aquela má disposição que vem do nada e teima em não se dissipar. À medida que as horas se passaram, foi caindo sobre ela uma ansiedade que não conseguia explicar. Tudo o que lhe diziam era mal dito e, por isso, levavam uma resposta torta, à altura do seu mau humor. As tarefas domésticas, que costumava levar com bastante ligeireza e considerava até agradáveis, nesse dia, pareceram-lhe maçadoras, inúmeras e intermináveis. Era como se todo o peso daquela casa enorme e de tudo o que ela acarretava na resolução da sua vida lhe tivesse caído, sem aviso prévio e de uma só vez, nas costas. As escadas custavam-lhe a subir e a descer, parecendo, a cada degrau, que as pernas se tornavam mais e mais pesadas. Subir e descer. Subir e descer. A sua vida era feita de subir e descer. As mesmas escadas. As escadas daquela casa. Aquela casa que, agora, lhe caía em cima e pesava toneladas. Aquela casa que se tinha transformado numa âncora tão aferrada ao chão, que não a deixava mexer-se. Para lado nenhum.

O último pontapé

Fotografia de Roberto Alarcon in www.flickr.com, via Pinterest (Mito Grafía)

Fotografia de Roberto Alarcon in www.flickr.com, via Pinterest (Mito Grafía)

Deu-lhe o último pontapé na zona do estômago. Doía-lhe o corpo devido à força que cada um dos seus músculos tinha feito. Já não ouvia gemidos há uns minutos, apenas via um vulto caído no chão, dobrado em si mesmo, protegendo-se como podia. Afastou-se. A respiração acelerada, a boca aberta por onde escorria um fio de saliva. Pôs as mãos na parede e, apoiando-se, baixou a cabeça. Lentamente, o coração voltou ao seu compasso habitual. Olhou para o relógio: já passava das 14h15. Tinha de sair; antes, porém, voltou à cozinha e entreabriu a porta. Ainda lá estava, sem se mexer. Não se aproximou; a simples ideia de o fazer, de ter de cheirar a sua transpiração, de ter de sentir o odor da derrota que lhe impregnava a pele, parecia-lhe incomportável. Virou-se e saiu, batendo com a porta. Enquanto descia as escadas, compunha a cara, ajeitava o sorriso e, quando se cruzou com a vizinha do andar de cima, disse, amavelmente «Olá! Como está? Faça favor!». A cada passo, as bofetadas, os insultos, os murros de punho fechado eram apenas uma lembrança longínqua; chegava mesmo a duvidar de que tudo aquilo alguma vez tivesse acontecido. Convencia-se de que tinha sonhado, porque, na verdade, não era capaz de fazer nada assim. Quando, logo, regressasse, tinha a certeza de que ninguém estaria no chão da cozinha e os cacos que imaginou terem ficado espalhados pelo chão não existiriam. Logo, quando voltasse, tudo seria diferente e não mais tornaria a ter sonhos daqueles.

                Sentiu o pontapé no estômago, mas já não conseguiu reagir. Depois, ouviu como saía pela porta, parando no corredor. Ouviu a sua respiração, acelerada e profunda, voltar ao normal. Continuava sem se mexer, quando sentiu a porta a entreabrir-se e uma cabeça a espreitar. «Não te mexas. Não te mexas», repetia para si. Permanecia imóvel, como se tivesse morrido ou, pelo menos, como se a morte rondasse o seu corpo doído e cansado de apanhar. Escutou o bater da porta da rua. Havia saído. Lentamente, tentou mexer-se: primeiro os braços, que tinha mantido a rodear a cabeça, para se proteger; depois, as pernas, que esticou e obrigou a suportar o seu peso. A cada movimento correspondia uma guinada, uma pancada descoberta, uma nódoa negra que iria certamente aparecer. Apoiando-se nas paredes, conseguiu, a pouco e pouco, chegar à casa de banho. Viu o seu rosto refletido no espelho por cima do lavatório. Desta vez, não teria de usar óculos escuros ou inventar uma história inútil para justificar um lábio rasgado – a cara tinha escapado. De volta à cozinha onde, desta vez, tudo tinha acontecido, avaliou o que teria de limpar: cacos de pratos e de copos pelo chão, líquido derramado, comida entornada. Decidiu começar já a apanhar tudo; não queria correr o risco de, mais tarde, estar tudo ainda naquele estado e, assim, dar-lhe outra oportunidade para que isto se repetisse. Assim, teria a possibilidade de conseguir uns dias de paz, dois, três, talvez uma semana.

                A campainha tocou. Sentiu o sangue parar-se nas veias. A medo, viu quem seria pelo óculo. Era a vizinha do andar de cima. Teria ouvido alguma coisa? Tivera tanto cuidado para não fazer barulho. Compôs a roupa, respirou fundo e abriu a porta. «Boa tarde, vizinho! Olhe, o carteiro pôs, por engano, esta carta na nossa caixa.», «Obrigado, vizinha! Até logo.» Fechou a porta, aliviado. Parecia não ter dado conta de nada.

A teia

Teceu a sua teia o melhor que conseguiu. Uma flor invisível, que apenas surgia para o mundo quando as gotas de orvalho iluminavam os seus fios. Debilidade feita força. Fragilidade tornada fortaleza. Beleza que mata.

Fotografia de Bruno Conceição in brunoconceicao.net

Fotografia de Bruno Conceição in brunoconceicao.net