Dou a palavra…

a Mia Couto e à sua escrita inconfundível, desta vez, em Terra Sonâmbula.

«Muidinga pousou os cadernos, pensageiro. A morte do velho Siqueleto o seguia, em estado de dúvida. Não era o puro falecimento do homem que lhe pesava. Não nos vamos habituando mesmo ao nosso próprio desfecho? A gente vai chegando à morte como um rio desencorpa no mar: uma parte está nascendo e, simultânea, a outra já se assoma no sem-fim. Com ele todas as aldeias morriam. Os antepassados ficavam órfãos da terra, os vivos deixavam de ter lugar para eternizar as tradições. Não era apenas um homem mas todo um mundo que desaparecia.»

in COUTO, Mia, Terra Sonâmbula, «Colecção Mil Folhas», Porto, jornal Público, 2003

Dou a palavra…

Herberto Helder (1930 – 2015). A Letras num Papel não poderia deixar passar em branco a morte de um dos grandes poetas portugueses do nosso tempo e oferece-vos uma das joias que nos deixou.

Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.

HELDER, Herberto, Poesia Toda, in poemário Assírio & Alvim, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998

Dou a palavra…

a Cesário Verde. O Dia Mundial da Poesia foi ontem, mas não faz mal voltar a ela todos os outros dias. Hoje, fazemo-lo pela mão de um dos maiores poetas portugueses. Bom domingo.

Sardenta

Tu, nesse corpo completo,
Ó láctea virgem doirada,
Tens o linfático aspecto
Duma camélia melada.

in VERDE, Cesário, O livro de Cesário Verde, 4.ª edição, s.l., Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, s.d.

Dou a palavra…

a Vladimir Nabokov, no primeiro parágrafo do muito controverso Lolita. Duas linhas que fazem uma antevisão única do que é esta história.

«Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.»

in NABOKOV, Vladimir, Lolita, «Colecção Mil Folhas», Barcelona, Público Comunicação Social SA, 2003

Dou a palavra…

a Charles Baudelaire, que, a propósito da «arte moderna», escreve, sobre a mulher, o seguinte:

«[…] a mulher, numa palavra, não é apenas […] a fêmea do homem. É antes uma divindade, um astro, que preside a todas as concepções do cérebro macho; é um reflexo de todas as graças da natureza condensadas num só ser; é o objecto da admiração e da curiosidade mais viva que o quadro da vida pode oferecer ao contemplador. »

in BAUDELAIRE, Charles, O pintor da vida moderna, 1.ª edição, Lisboa, Vega, 1993

Dou a palavra…

a Gabriel García Márquez, naquele que é, certamente, um dos começos de obra mais magistrais de todos os tempos.

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo. […]»

in MÁRQUEZ, Gabriel García, Cem Anos de Solidão, 19.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004

Dou a palavra…

a Luís de Camões e a um clássico da sua obra lírica.

Um mover d’olhos brando e piadoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso.

um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
ua pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;

um encolhido ousar; ua brandura;
um medo sem ter culpa, um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:

esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.

 

in Eu cantarei de amor, Lírica de Luís de Camões, introdução, notas e comentários de Amélia Pinto Pais, Areal Editores, Porto, 1998

Dou a palavra…

a Michael Ondaatje, na obra O Doente Inglês, numa passagem que surge a propósito dos ventos… Leiam o resto, que não se irão arrepender.

«Há sempre milhões de toneladas de poeira no ar, tal como há milhões de partículas de ar na terra e mais seres vivos debaixo do solo (minhocas, larvas, criaturas subterrâneas) do que a pastar e a viver sobre ele. Heródoto relata a morte de vários exércitos tragados pelo simoon, e que nunca mais tornaram a ser vistos. Certa nação “tão irada ficou com este vento diabólico que lhe declarou guerra e marchou contra ele em boa ordem de batalha, para logo ficar repentina e completamente sepultada”.
Tempestades de poeira sob três formas. O turbilhão. A coluna. O lençol. Na primeira perde-se o horizonte. Na segunda é-se rodeado por “génios dançarinos”. A terceira, o lençol, é “cor de cobre. A natureza parece ficar toda em chamas”.»

in ONDAATJE, Michael, O Doente Inglês, «Ficção Universal», Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1996, página 29

Dou a palavra…

a Luis Cernuda. Seguir o nosso caminho, sempre.

Peregrino

Regressar? Regresse o que sentir
Após longos anos e uma longa viagem,
Cansaço do caminho e a cobiça
De sua terra, sua casa, seus amigos,
Do amor que, ao regressar, o espere, fiel.

Mas tu? Voltar? Não penses regressar,
Mas continuar livre, para a frente,
Disponível para sempre, moço ou velho,
Sem filho que te busque, como a Ulisses,
Sem Ítaca à espera e sem Penélope.

Continua, continua e não regresses,
Fiel até ao fim do caminho e de tua vida,
Não sintas a falta de um destino mais fácil,
Teus pés sobre a terra nunca antes pisada,
Teus olhos enfrentando o jamais visto.

Luis Cernuda (1902 – 1963) in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea (seleção e tradução de José Bento), in poemário Assírio & Alvim 1998, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998

Dou a palavra…

a Jorge Amado. A história O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, uma história de amor é, toda ela, bela. De uma beleza simples, sem complexidades, delicada. Vale a pena ler e, ao mesmo tempo, apreciar as ilustrações que a acompanham. Deixo-vos com um excerto de uma das primeiras páginas, que descreve o amanhecer…

«Com um beijo , a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direção ao horizonte. Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a Manhã esquenta o Sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão delicada rapariga. É necessário soprar as brasas consumidas ao passar da Noite, obter uma primeira, vacilante chama, mantê-la viva até crescer em fogaréu. […]»

in AMADO, Jorge, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá uma história de amor (ilustrações de Carybé), Publicações Dom Quixote, 1.ª edição, Lisboa, 2001