Dou a palavra…

a ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY. Hoje, O Principezinho tem uma coisa para vos dizer, no entanto, o livro não se esgota aqui, muito pelo contrário…

«– Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…»

in SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, O Principezinho, 26.ª edição, Queluz de Baixo, Editorial Presença, 2006

Dou a palavra…

a William Shakespeare e, quase de certeza, à história de amor mais vezes contada.

«Na bela Verona, onde se vai passar este drama, duas famílias, iguais em nobreza, impulsionadas por antigos rancores, fazem com que entre si se desencadeiem novas discórdias, em que o sangue dos cidadãos tinge as mãos dos cidadãos.

                Das entranhas fatais destas duas famílias inimigas, e sob funesta estrela, nascem dois amantes, cuja desventura e lamentável ruína há-de enterrar, com a sua morte, a luta dos seus pais. As terríveis peripécias deste fatal amor e a raiva obstinada desses pais, que nada pôde aplacar senão a morte dos filhos, vão ser, durante duas horas, o assunto da nossa representação. Se quiserdes ouvir-nos com benévola atenção, o nosso zelo há-de esforçar-se por corrigir o que nela achardes de insuficiente.»

 

in SHAKESPEARE, William, Romeu e Julieta, Coleção Novis, Lisboa, 2000

Dou a palavra…

a AIRAS NUNES e a esta deliciosa cantiga de amigo. Bom domingo!

Bailemos nós já todas tres, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas;
e quem for velida, como nós velidas,
se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.

Bailemos nós já, todas tres, ai irmãas,
sô aqueste ramo destas avelãas;
e quem for louçãa, como nós, louçãas,
se amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelãs
verrá bailar.

Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos,
sô aqueste ramo frolido bailaremos;
e quem bem parecer, como nós parecemos,
se amigo amar,
sô aqueste ramo, sol que nós bailemos,
verrá bailar.

in NUNES, Airas, Do Cancioneiro de Amigo, organização de Stephen Reckert e Helder Macedo, Poemário Assírio & Alvim, s.l., Assírio & Alvim, 1998

Dou a palavra…

a JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS. Texto único como poucos, o Manifesto Anti-Dantas* marcou e revolucionou o panorama cultural e literário de Portugal de princípios do século XX. Não deixem de ler o resto.

manifesto

 

* A edição está segundo a grafia original do autor.

 

in ALMADA-NEGREIROS, José de, Manifesto Anti-Dantas, 2.ª edição, Edições Ática, Lisboa, 2000

Dou a palavra…

a HARUKI MURAKAMI. Escritor japonês que prima pelas histórias impossíveis, inexplicáveis e profundamente viciantes. A não perder. Apresento-vos um excerto da obra Kafka à beira-mar.

                «Porém, no dia a seguir a ter caído uma chuva de peixes, a descoberta num quarteirão próximo do corpo de um homem, golpeado até à morte, deixou o polícia quase sem respirar. O homem morto era um escultor famoso, e o corpo foi descoberto pela empregada da limpeza que ia lá a casa dia sim, dia não. O corpo estava nu e jazia numa poça de sangue. Calculava-se que a morte tivesse ocorrido duas noites antes, e a arma do crime usada fora uma faca da cozinha. Para sua grande consternação, o jovem polícia percebeu finalmente que o velho tinha contado a verdade. Meus Deus, pensou ele, como é que me fui meter nesta maldita alhada! Devia ter dito ao velhote que aguardasse na esquadra. Ele confessou o crime, e o que eu devia ter feito era pegar no homem, entrega-lo aos meus superiores hierárquicos e deixá-los decidir se ele era ou maluco ou não. Mas, não o fazendo, fugi às minhas responsabilidades. Agora que a situação chegou a este ponto, decidiu o jovem polícia, a única coisa a fazer é manter o bico calado e fingir que nada aconteceu.

                Por esta altura, já Nakata abandonara a cidade.»

in MURAKAMI, Haruki, Kafka à beira-mar, «Ficção Estrangeira», 1.ª edição, Cruz Quebrada, Casa das Letras, 2006.

Dou a palavra…

a JOÃO TORDO. No meu ver, um dos melhores escritores da atualidade no nosso país. Apresento-vos um excerto de um dos seus romances, O Ano Sabático: um enredo que nos prende e nos deixa a pensar nele mesmo depois de fecharmos o livro.

“Tornaram a bater à porta, desta vez com mais força. Por dentro, Hugo tremeu, mas fez um enorme esforço por não o mostrar.
«Presumo que existam pessoas como você em toda a parte do mundo», disse Stockman. «Que vivem na ilusão de que algures, em alguma altura, alguém lhes tirou aquilo que lhes era devido. E, depois, passam o resto da vida a tentar recuperar essa coisa que, ni fundo, nunca existiu verdadeiramente.» Stockman fez uma pausa. «É triste. Mais triste ainda que veja em mim, um completo desconhecido, a causa do seu infortúnio.»
«Não somos completos desconhecidos», insistiu Hugo, dando-se conta de que tornara a pôr os óculos. «Se calhar, conhecemo-nos desde sempre sem o sabermos. No concerto, tocou uma composição na qual passei anos a trabalhar. Já lho disse. Essa composição não está no seu disco. Não é de outro músico qualquer. Não foi um improviso. É minha. E, se a partilhamos, só há duas hipóteses.»”

in TORDO, João, O Ano Sabático, 1.ª edição, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2013.

Dou a palavra…

Desenho de Elisabete Fiel

Desenho de Elisabete Fiel

Esta semana, o «Dou a palavra…» tem caráter de exceção. Assim, a Letras num Papel reserva este espaço para si, numa homenagem a todas as mães, mas a uma em especial que partiu demasiado cedo. Feliz Dia da Mãe.

Se eu pudesse permanecer num segundo, durante mais tempo do que o tempo que um segundo tem, escolheria o momento em que, no teu colo, me aninhei e me escondi dos males do mundo.

Ana Galhanas para a Letras num Papel

Dou a palavra a…

MIGUEL TORGA. No rescaldo do 25 de Abril, a Letras num Papel apresenta, hoje, um excerto do último conto da obra Bichos, «Vicente»; a história de um o corvo que escolhe ser livre e deixar a Arca de Noé. Aparentemente inocente, trata-se de uma reflexão poderosa sobre o que significa escolher a liberdade e fazer frente às consequências que a mesma traz. Não deixem de ler (este e os outros contos).

                «Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço fora devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.»

 

in TORGA, Miguel, Bichos, 19.ª edição, Coimbra, Coimbra, 1995.

Dou a palavra a…

EÇA DE QUEIRÓS. Enorme no seu talento, único na sua forma de escrever é, sem dúvida, o meu escritor português preferido e aquele que mais li. Neste domingo, deixo-vos com a passagem-chave do romance Os Maias.

«Entravam então no peristilo do Hotel Central – e nesse momento um cupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da Ria do Arsenal, veio estacar à porta.

                Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, de pelos esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depois apeando-se, indolente e poseur, ofereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si, como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um colete de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas. O rapaz ao lado, esticado num fato de xadrezinho inglês, abria negligentemente um telegrama; o preto seguia com a cadelinha nos braços. E no silêncio a voz do Craft murmurou:

                — Trés chic.»

in QUEIRÓS, Eça de, Os Maias, Episódios da Vida Romântica, «Colecção Livros de Bolso Europa-América», 3.ª edição, s.l., Publicações Europa-América, s.d.

Dou a palavra…

a Laura Esquivel. Em Como Água para Chocolate conta-se, recorrendo ao contexto da culinária mexicana, uma história de amor. Nesta passagem, retirada de um capítulo em que se cozinha «Codornizes em Pétalas de Rosas», a comida faz muito mais do que saciar a fome…

                «Mas era inútil, algo estranho lhe acontecia. Procurou encontrar apoio em Tita, mas ela estava ausente, o corpo estava em cima da cadeira, sentada, e muito correctamente, é verdade, mas não havia qualquer sinal de vida nos seus olhos. Até parecia que num estranho fenómeno de alquimia o seu ser se tinha dissolvido no molho das rosas, no corpo das codornizes, no vinho e em cada um dos odores da comida. Penetrava assim no corpo de Pedro, de forma voluptuosa, aromática, quente, completamente sensual.»

in ESQUIVEL, Laura, Como Água para Chocolate, 26.ª edição, Porto, Edições ASA, 2004