Sonhos.

Recupero um conto publicado o ano passado, por esta mesma altura. O tema, infelizmente, não é novo e, apesar dos muitos anúncios e menções ao mesmo, dos inúmeros «likes» no Facebook e das abundantes palavras de comoção, não há solução à vista. Assim, deixo-vos, outra vez, com «Sonhos», esperando que um dia, seja ou não de Natal, deixe de ser um descrição da realidade que muitos vivem e passe a ser, apenas, um exercício de imaginação.

sonhosPôs 3dl de leite com 1,5dl de óleo, a casca de limão e o sal, num tacho, a ferver. Pensou noutros natais que já vivera ali em casa. Sorriu quando se lembrou da expressão do Pedro, ainda bebé, ao ver, pela primeira vez, a árvore de Natal cheia de luzes, fitas e bolas coloridas; ou daquela vez em que a Joana correu, assustada, para o seu colo mal o Pai Natal entrou na sala, e nem o facto de ser ele o portador dos tão desejados presentes a fez mover-se dos seus braços. Quando o leite e o óleo já ferviam, juntou 250gr de farinha e mexeu energicamente com a velha colher de pau que tantas vezes usara para preparar as consoadas. Pensou que talvez fosse melhor não estar a fazer doces, mas, a verdade, é que a ajudava a esquecer-se da vida ou, se calhar, a lembrar-se. Pareceu-lhe ouvir a porta da rua a bater. Levantou a cabeça em sinal de alerta, mas não ouviu passos. Espreitou para o corredor, nada. Deveria ter sido o vizinho a chegar. No momento em que a massa já se descolava do tacho, parou de a mexer; pôs o recipiente na bancada da cozinha, havia que deixar arrefecer. Olhou para a fotografia do Miguel, acompanhado do avô e dela própria; imaginou como seriam as suas feições, agora. Como seria bom estarem todos juntos, outra vez! Reparou no relógio: marcava as 18h30. Eram 18h30 do dia 24 de dezembro. Sentou-se, à espera. Pouco depois, verificou que a massa já estava fria; juntou-lhe seis ovos inteiros e mexeu tudo muito bem. Tinha posto, entretanto, óleo ao lume para fritar as colheradas de massa, que ia deitando com a segurança própria de quem já repetira esta tarefa mais vezes do que aquelas de que se lembrava. Eram quase 20h. Polvilhou os sonhos de Natal com açúcar e canela. Levou o prato para a mesa, que estava posta para uma pessoa, para ela própria. Sentou-se. Olhou em volta e a quietude apertou-lhe o peito. Estava só com os seus sonhos. E chorou.

 

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