Palavras Cruzadas

Imagem encontrada em www.flickr.com, via Pinterest (Agência Eiffel)

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Fazia palavras cruzadas. Vivia para isso. Para escrever cada letra; para as entrelaçar, formando sílabas que, por sua vez, se transformavam em palavras.

Todos os dias, muito cedo, levantava-se, abria o estore da janela do quarto e começava a sua deambulação pelo mundo das palavras. Desfilavam pela sua mente como modelos na passarela: umas compridas e intrincadas, outras breves e suaves como o pousar de uma folha no chão por alturas do outono. À medida que as palavras lhe tomavam os pensamentos, ia pronunciando cada um dos sons que as compunham, construindo, inconscientemente, uma ladainha que o acompanhava enquanto se vestia e se preparava para sair.

A viagem que, cada dia, levava a cabo era, porém, breve. Em passos medidos e postura rígida, seguia até ao quiosque da esquina onde comprava alguns jornais. Não sabia com exatidão o ano em que estava, muito menos o mês ou o dia da semana. Não lia uma linha sobre a atualidade que enchia as páginas de todas aquelas publicações. Não lhe interessava.

De novo em casa, começava a folhear cada jornal, de trás para a frente, parando, em todos, na mesma página: a das palavras cruzadas. Começava, então, o seu dia. Novas palavras, velhas palavras suas conhecidas, palavras isoladas que absorvia com sofreguidão.

«O que aponta o início da manhã». Mal leu a indicação, uma palavra cresceu perante os seus olhos, ganhou rosto, corpo, cheiro. Era ela que estava, passado tanto tempo, à sua frente. Sorria-lhe da mesma forma que o tinha feito na última vez em que se viram. Aurora tornara-se, de novo, real e olhava para ele, esperando que, finalmente, pronunciasse uma frase. A frase. Mas, outra vez, as palavras certas lhe fugiam; não era capaz de escolher quais as mais belas, quais as mais claras, quais as mais certas, para lhe dizer que a amava. Outra vez, viu o seu olhar esmorecer. As palavras a desfilarem à sua frente. Outra vez, a viu preparar-se para ir. As palavras desordenadas à sua frente. Outra vez, ela se virou. Tantas palavras por onde escolher. Outra vez, ela se foi, equilibrando-se em passos incertos. Tantas palavras. Outra vez, ficou sozinho. Amo-te. Conseguiu, enfim, pronunciar. E, outra vez, fê-lo tarde de mais.

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