Outono

Fotografia encontrada em https://estibabalia.wordpress.com, via Pinterest (Ellen Graves)

Fotografia encontrada em https://estibabalia.wordpress.com, via Pinterest (Ellen Graves)

Um dia, olhou pela janela e deu-se conta de que já era outono. Tentou calcular há quanto tempo não se assomava a um vidro para poder ver o que se passava lá fora. Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão. Havia muito tempo, certamente, e saber isso bastava-lhe. Às vezes acontecia-lhe olhar à sua volta e não entender o que realmente se passava. Talvez tivesse sido essa a razão de ter deixado de sair de casa. Talvez tivesse sido por isso que, para ela, o mundo era, agora, um retângulo de vidro que se abria de vez em quando à sua frente. Observando as árvores a desfazerem-se das suas folhas, teve saudades de respirar o ar frio de uma manhã de outono; aquele frio que nos entra pelas narinas e pelos pulmões dentro, acordando cada célula, cada órgão do nosso corpo. Sempre tinha preferido o frio ao calor; sempre a fizera sentir-se viva. No entanto, até onde a sua memória alcançava, não conseguia lembrar-se de um momento em que um arrepio de frio lhe tivesse agitado as entranhas.

Alguém entrou e se dirigiu a ela. Olhou-a com a simpatia com que se olha um perfeito desconhecido na rua que nos pergunta as horas. Suavemente, aquela pessoa agarrou-lhe o braço e conduziu-a a um cadeirão onde, à sua espera, estava uma manta com a qual as suas pernas foram cobertas. Perguntou-lhe se tinha frio. «Não, não tenho frio, obrigada.» Depois, aquela mulher chamou-lhe «mãe». Observou-a e tentou lembrar-se. Afinal, ninguém esquece que foi mãe; que é mãe de alguém. Mas apenas se conseguiu lembrar das folhas a caírem lá fora e de que era outono. Sorriu. Lembrou-se também dos arrepios. Como gostaria de voltar a sentir um arrepio de frio que a fizesse saborear novamente a vida.

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