O último pontapé

Fotografia de Roberto Alarcon in www.flickr.com, via Pinterest (Mito Grafía)

Fotografia de Roberto Alarcon in www.flickr.com, via Pinterest (Mito Grafía)

Deu-lhe o último pontapé na zona do estômago. Doía-lhe o corpo devido à força que cada um dos seus músculos tinha feito. Já não ouvia gemidos há uns minutos, apenas via um vulto caído no chão, dobrado em si mesmo, protegendo-se como podia. Afastou-se. A respiração acelerada, a boca aberta por onde escorria um fio de saliva. Pôs as mãos na parede e, apoiando-se, baixou a cabeça. Lentamente, o coração voltou ao seu compasso habitual. Olhou para o relógio: já passava das 14h15. Tinha de sair; antes, porém, voltou à cozinha e entreabriu a porta. Ainda lá estava, sem se mexer. Não se aproximou; a simples ideia de o fazer, de ter de cheirar a sua transpiração, de ter de sentir o odor da derrota que lhe impregnava a pele, parecia-lhe incomportável. Virou-se e saiu, batendo com a porta. Enquanto descia as escadas, compunha a cara, ajeitava o sorriso e, quando se cruzou com a vizinha do andar de cima, disse, amavelmente «Olá! Como está? Faça favor!». A cada passo, as bofetadas, os insultos, os murros de punho fechado eram apenas uma lembrança longínqua; chegava mesmo a duvidar de que tudo aquilo alguma vez tivesse acontecido. Convencia-se de que tinha sonhado, porque, na verdade, não era capaz de fazer nada assim. Quando, logo, regressasse, tinha a certeza de que ninguém estaria no chão da cozinha e os cacos que imaginou terem ficado espalhados pelo chão não existiriam. Logo, quando voltasse, tudo seria diferente e não mais tornaria a ter sonhos daqueles.

                Sentiu o pontapé no estômago, mas já não conseguiu reagir. Depois, ouviu como saía pela porta, parando no corredor. Ouviu a sua respiração, acelerada e profunda, voltar ao normal. Continuava sem se mexer, quando sentiu a porta a entreabrir-se e uma cabeça a espreitar. «Não te mexas. Não te mexas», repetia para si. Permanecia imóvel, como se tivesse morrido ou, pelo menos, como se a morte rondasse o seu corpo doído e cansado de apanhar. Escutou o bater da porta da rua. Havia saído. Lentamente, tentou mexer-se: primeiro os braços, que tinha mantido a rodear a cabeça, para se proteger; depois, as pernas, que esticou e obrigou a suportar o seu peso. A cada movimento correspondia uma guinada, uma pancada descoberta, uma nódoa negra que iria certamente aparecer. Apoiando-se nas paredes, conseguiu, a pouco e pouco, chegar à casa de banho. Viu o seu rosto refletido no espelho por cima do lavatório. Desta vez, não teria de usar óculos escuros ou inventar uma história inútil para justificar um lábio rasgado – a cara tinha escapado. De volta à cozinha onde, desta vez, tudo tinha acontecido, avaliou o que teria de limpar: cacos de pratos e de copos pelo chão, líquido derramado, comida entornada. Decidiu começar já a apanhar tudo; não queria correr o risco de, mais tarde, estar tudo ainda naquele estado e, assim, dar-lhe outra oportunidade para que isto se repetisse. Assim, teria a possibilidade de conseguir uns dias de paz, dois, três, talvez uma semana.

                A campainha tocou. Sentiu o sangue parar-se nas veias. A medo, viu quem seria pelo óculo. Era a vizinha do andar de cima. Teria ouvido alguma coisa? Tivera tanto cuidado para não fazer barulho. Compôs a roupa, respirou fundo e abriu a porta. «Boa tarde, vizinho! Olhe, o carteiro pôs, por engano, esta carta na nossa caixa.», «Obrigado, vizinha! Até logo.» Fechou a porta, aliviado. Parecia não ter dado conta de nada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *