Talvez vá.

Fotografia de Ohma in www.thebeck.tumblr.com, via Pinterest

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O rio corre limpo; limpo corre o rio. À sua beira, sinto calor apesar de nuvens opacas impedirem que a luz quente do Sol chegue até mim; sinto calor, porque pousou em mim um olhar; aquele olhar que, reconfortante como um copo de vinho, me lembrou que ainda estava viva. Ouço uma guitarra lá longe; os seus acordes preenchem-me como um mosaico enche um chão. Um mosaico. Um chão. À minha frente, está a estação de comboios. Talvez vá.

As pernas quase se levantam; quase correm para o sítio onde disseste que estarias à minha espera; chego até a sentir os músculos contraírem-se, impelindo-me para dentro de um dos vagões do comboio que em breve sairá. As pernas. Os músculos.

Consigo sentir os teus beijos na minha pele e ouvir a tua respiração acelerada de encontro ao meu corpo; o meu corpo que tantas vezes gritou por ti, em agonia por não te ter; o meu corpo que, agora, a uma palavra tua quer deixar tudo para trás e agarrar-se ao teu. Passam, diante de mim, pessoas que correm, apressadas. E eu, lutando comigo, apenas consigo pensar na suavidade dos lençóis em que dormiríamos esta noite. Um corpo. Uma palavra.

Um silvo agudo penetra pelo ar fora e fura os meus pensamentos. O comboio vai sair. Um cansaço absurdo abate-se sobre mim e qualquer movimento que pense fazer afigura-se-me insuportável. Sei que os vagões já começaram a deslizar; já começaram o seu caminho sem mim. Percebo as lágrimas na minha face; lágrimas que chorei já tantas vezes. Ainda ouço a guitarra lá longe. Obrigo-me a levantar e sigo o seu som. O teu olhar ainda em mim. As lágrimas. A guitarra. Amanhã, a estação de comboios continuará ali. Talvez vá.

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