Dou a palavra…

a Camilo Pessanha*.

II

Passou o outomno já, já torna o frio…
— Outomno de seu riso maguado.
Algido inverno! Obliquo o sol, gelado…
— O sol, e as aguas límpidas do rio.

Aguas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cançado,
Para onde levaes meu vão cuidado?
Aonde vaes, meu coração vazio?

Ficae cabelos d’ella, fluctuando,
E, debaixo das aguas fugidias,
Os seus olhos abertos e scismando…

Onde ides a correr, melancolias?
— E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translucidas e frias…

in PESSANHA, Camilo, Clepsydra, edição crítica de Paulo Franchetti, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1995

 

* A ortografia está segundo o original, escrito pelo autor.

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