Dou a palavra (especial ano novo)…

a Matsuo Bashô (1644 – 1694).

PRÓLOGO

Os meses e os dias são viajantes da eternidade. Assim como o ano que passa e o ano que vem. Para aqueles que se deixam flutuar a bordo dos barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e a sua casa é o espaço sem fim. Dos homens do passado, muitos morreram em plena rota. A mim mesmo, desde há anos, me perseguem pensamentos de vagabundo mal vejo uma nuvem arrastada pelo vento.

Passei o último Inverno percorrendo a costa. No Outono regressei à minha cabana nas margens do rio. Mal tivera tempo de limpar as teias de aranha quando me surpreendeu o fim do ano. Em breve, a névoa da Primavera cobriria o ceú e os campos, e eu queria atravessar Shirakawa nessa altura. Tudo o que via me convidava a viajar. Tão possuído estava pelos deuses que não conseguia dominar os meus pensamentos. Os espíritos do caminho faziam-me sinais, e dei-me conta que não podia adiar por mais tempo a minha partida.

Remendei as minhas calças rotas, mudei as tiras do meu chapéu de palha e untei as minhas pernas para as fortalecer. A ideia da lua na ilha de Matsushima enchia as minhas horas. Cedi a minha cabana e fui para casa de Sampu. Num dos pilares deixei este poema:

Também esta cabana de colmo
se há-de transformar
em casa de bonecas.

BASHÔ, Matsuo (1644 – 1694), O Gosto Solitário do Orvalho, seguido de O Caminho Estreito (organização de Jorge Sousa Braga) in Imaginário Assírio & Alvim 2004, Assírio & Alvim, 2004

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