Que nunca ninguém se esqueça*

Antes de o ano terminar, queria escrever uma homenagem a alguém. No entanto, às vezes, são tantas as palavras que rodopiam em nós, que não conseguimos fixá-las. Os pensamentos misturam-se, os sentimentos complicam-se e, simplesmente, as frases não aparecem. Acontece-me sempre isto quando tento pôr no papel uma dor. Primeiro vem a impressão no estômago, um tremor, ao princípio, quase impercetível, mais tarde, manifestamente desconfortável; depois, a pulsação mais rápida, o nervosismo de não conseguir.

A dor que, desta vez, tento pôr no papel, é a da perda. A inexplicável perda de uma pessoa.

Diz-se por aí que a estupidez humana não tem limites. É verdade. Não tem. Tal como os não tem a maldade. A tragédia ocorre quando, por uma idiota coincidência do destino, a estupidez e a maldade se encaram. Perde-se, assim, uma vida, porque alguém decide que já não é tempo de viver; perde-se uma vida, porque alguém decide que é tempo de morrer.

A propósito do que aconteceu, deste incrível episódio, ouvi muitos comentários; nestas alturas, todos têm o que dizer e o povo tem, por vezes, tomadas de posição difíceis de aceitar. Eu tenho algo muito simples a manifestar, dois pedidos, se quiserem. O primeiro é que nunca ninguém esqueça a pessoa a quem a vida foi arrancada; o segundo, que nunca ninguém se esqueça de que quem o fez é um assassino.

 

* No dia 6 de maio de 2014, por volta das 16h, a advogada Natália de Sousa foi vilmente assassinada, no seu escritório, em Estremoz, quando e porque exercia funções inerentes à sua profissão. É para ela este texto. Que nunca se esqueça o que lhe aconteceu nem quem o perpetrou.

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