Sonho: quem tudo quer…

«Terraço Itália» de Gregorio Gruber in www.guia.folha.uol.com.br

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Acordou mergulhado em suor. A garganta seca e doída como se tivesse estado a gritar. «Outra vez a merda do sonho!». Levantou-se; foi à casa de banho; abriu a torneira. Soube-lhe bem a água gelada na cara. Voltou para a cama, mas desperto, pensando.

«Quero mais» – a voz, que era a sua, soava-lhe à de um estranho. Do outro lado da linha, um silêncio; um suspiro; uma tentativa de resposta que não chegava. «Mas o senhor tinha dito que não iria pedir mais…» «Mudei de ideias. Quero mais.» «Quanto?» «Mais cinco mil.» «Eu não tenho esse dinheiro! Acha que sou rico?» «Ouça, não sei se é rico ou se não é. Sei que tenho informações sobre si que iriam interessar a muita gente e que não lhe convém que se saibam! Quero mais cinco mil o quanto antes!» – só agora reparava que estava a gritar; a impaciência a tomar conta de si.

Escurecia já. Não por ser muito tarde, mas porque o horário de inverno traz mais cedo a noite que, desta forma, se instala nas ruas, nas caras e nos corações da gente. Enquanto conduzia, pensava outra vez no sonho que tinha tido. Chegou primeiro. Pouco depois, outro carro estacionou perto do seu; desligaram as luzes. Durante um ou dois minutos, nada aconteceu, como se estivessem a testar-se. João sai, então, do carro. O outro também; trazia um envelope na mão esquerda. João sorriu, aliviado. «Aqui tem.» «Muito obrigado, caro senhor», disse João, baixando a cabeça. «Porquê? Porque é que me faz isto?» João hesitou. «Sabe que achei mesmo que não lhe fosse pedir mais, mas não consigo.» Sorriu outra vez. O outro andou em direção ao carro. Quando abriu a porta, no entanto, virou-se. Ouviu-se um estrondo. PUM. João caiu no chão ainda sem perceber o que lhe tinha acontecido. De repente, percebeu. «O sonho. Estou a morrer como na merda do sonho.»

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