Em branco

mulher-sentada-239x300Seria hoje. Enquanto caminhava pelo corredor, pensava nas tarefas que, todos os dias, lhe ocupavam o ser e o sentir. Arrumar a cozinha; depois os quartos. Por que razão não os ensinara, nem sequer insistira, a pôr as coisas no devido lugar? Fez um esforço, mas não se conseguiu lembrar do porquê. As suas mãos, já em piloto automático, continuavam a dobrar, a separar, a abrir e a fechar gavetas e portas de armários.

Sentou-se por um instante. Observou à sua volta a casa impecavelmente limpa e arrumada. O silêncio. Seria hoje.

Não se conseguia lembrar do momento em que tinha começado a ficar em branco, em que a sua vida fora sendo apagada, ao ponto de lhe restar apenas aquela casa para cuidar. Ficou horas sentada. Passou a manhã; ouviu o carteiro tocar à campainha – não atendeu; ouviu os cães ladrarem em sinal de alerta, mas não se levantou. Apenas um pensamento contínuo: seria hoje.

Por fim, quando a luz da tarde iluminou a sala cheia dela própria, levantou-se. Sentiu um ligeiro sobressalto que a acordou daquele sono desperto. Uma contração no estômago seguida de um espasmo de alívio. Mecanicamente, retirou dos armários tachos e ingredientes.

Chegaram. Como sempre, tudo a postos, na mesa, esperava por eles. Ela, cuja presença era tão esperada como a das paredes que sustentam a casa, também lá estava, à espera.

Ao final da noite, na cama, embalada pelo som de um qualquer programa que, lá longe, alguém via, fechou os olhos. Não foi hoje, pensou angustiada. Logo de seguida o conforto: será amanhã. (Imagem de obra de Vicente do Rego Monteiro in www.bcb.gov.br)

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