Linguagem inclusiva, mas poucochinho…

«Portugueses e portuguesas», «cidadãos e cidadãs»… Chamam-lhe linguagem inclusiva (http://www.igualdade.gov.pt/IMAGES/STORIES/DOCUMENTOS/DOCUMENTACAO/PUBLICACOES/LINGUAGEM.PDF) e ocupa muito do tempo de inúmeras instituições por esse mundo fora. No entanto, e referindo-me em concreto ao que me incomoda, este tipo de linguagem poderia também ser denominada de a mais nova forma de assassinar a gramática portuguesa de uma maneira até simpática e parecendo que se importam com os direitos das mulheres. A pergunta é simples: de que forma é que alguém se sente mais incluído na vida social e/ou política deste país pelo simples facto de, nos discursos, documentos oficiais, etc., se invocarem os destinatários no género masculino e também no feminino? É que, além de tudo, a gramática do português é muito clara neste aspeto: referindo-se a um coletivo, bastará haver um membro do sexo masculino para o nome assumir esse mesmo género.

Enquanto portuguesa e cidadã e tudo o mais que queiram no género feminino, sinto-me insultada de cada vez que este vocativo é pronunciado, sendo que em tempo de campanhas, é-o até à exaustão. E sinto-me insultada, porque, enquanto portuguesa, enquanto cidadã e, principalmente, enquanto mulher, gostaria que os nossos políticos, os nossos «pensadores sociais» ou lá como se chamem os que têm estes rasgos profundos de inteligência, a preocuparem-se com a inclusão das mulheres, o fizessem de verdade, olhando para os seus verdadeiros problemas: para a desigualdade de tratamento no local de trabalho, para a diferença de salários, para os obstáculos que têm de enfrentar quando há que conciliar carreira e família, para…, enfim, para a vida real!

É certo que a língua muda e que deve acompanhar o evoluir dos tempos, mas há tanto a fazer pela inclusão das mulheres (e não só), que todo este aparato me parece obsoleto e profundamente oco.

O relógio

relógio_2016Olhava para o relógio como se, em qualquer momento, os ponteiros pudessem fugir do caminho que infinitamente trilhavam. Olhava para o relógio com a ansiedade de quem espera que a vida possa ter ainda alguma coisa para lhe oferecer. Olhava e via que podia ser; que o momento em que os ponteiros se encontrassem, finalmente, junto ao número 12, sobranceiro, cheio de si e de desejos de milhões de pessoas, seria, para ela o recomeço de tudo, o fim e, simultâneamente, o princípio, a morte e a vida numa única existência. Olhava para o relógio e acreditava. Começava mais um ano e tinha de acreditar.

Sonhos.

Recupero um conto publicado o ano passado, por esta mesma altura. O tema, infelizmente, não é novo e, apesar dos muitos anúncios e menções ao mesmo, dos inúmeros «likes» no Facebook e das abundantes palavras de comoção, não há solução à vista. Assim, deixo-vos, outra vez, com «Sonhos», esperando que um dia, seja ou não de Natal, deixe de ser um descrição da realidade que muitos vivem e passe a ser, apenas, um exercício de imaginação.

sonhosPôs 3dl de leite com 1,5dl de óleo, a casca de limão e o sal, num tacho, a ferver. Pensou noutros natais que já vivera ali em casa. Sorriu quando se lembrou da expressão do Pedro, ainda bebé, ao ver, pela primeira vez, a árvore de Natal cheia de luzes, fitas e bolas coloridas; ou daquela vez em que a Joana correu, assustada, para o seu colo mal o Pai Natal entrou na sala, e nem o facto de ser ele o portador dos tão desejados presentes a fez mover-se dos seus braços. Quando o leite e o óleo já ferviam, juntou 250gr de farinha e mexeu energicamente com a velha colher de pau que tantas vezes usara para preparar as consoadas. Pensou que talvez fosse melhor não estar a fazer doces, mas, a verdade, é que a ajudava a esquecer-se da vida ou, se calhar, a lembrar-se. Pareceu-lhe ouvir a porta da rua a bater. Levantou a cabeça em sinal de alerta, mas não ouviu passos. Espreitou para o corredor, nada. Deveria ter sido o vizinho a chegar. No momento em que a massa já se descolava do tacho, parou de a mexer; pôs o recipiente na bancada da cozinha, havia que deixar arrefecer. Olhou para a fotografia do Miguel, acompanhado do avô e dela própria; imaginou como seriam as suas feições, agora. Como seria bom estarem todos juntos, outra vez! Reparou no relógio: marcava as 18h30. Eram 18h30 do dia 24 de dezembro. Sentou-se, à espera. Pouco depois, verificou que a massa já estava fria; juntou-lhe seis ovos inteiros e mexeu tudo muito bem. Tinha posto, entretanto, óleo ao lume para fritar as colheradas de massa, que ia deitando com a segurança própria de quem já repetira esta tarefa mais vezes do que aquelas de que se lembrava. Eram quase 20h. Polvilhou os sonhos de Natal com açúcar e canela. Levou o prato para a mesa, que estava posta para uma pessoa, para ela própria. Sentou-se. Olhou em volta e a quietude apertou-lhe o peito. Estava só com os seus sonhos. E chorou.

 

80 anos depois, ainda Fernando Pessoa

Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa

Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa

Cumprem-se, hoje, 80 anos da sua morte e, no entanto, permanece ainda tanto de si para descobrir.

«É talvez  o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.

Alberto Caeiro, Poesia (edição de Cabral Martins e Richard Zenith)

Dou a palavra…

aos SMASHING PUMPKINS. Continuando na temática das abóboras, escolhi para hoje uma das minhas bandas preferidas e um dos álbuns que mais vezes ouvi ao longo da minha vida… Até custa acreditar que já se passaram vinte anos desde que, pela primeira vez, se escutaram estas palavras. Boa semana!

 

Bullet With Butterfly Wings

The world is a vampire, sent to drain
secret destroyers, hold you up to the flames
and what do i get, for my pain
betrayed desires, and a piece of the game
even though i know-i suppose i’ll show
all my cool and cold-like old job
despite all my rage i am still just a rat in a cage
then someone will say what is lost can never be saved
despite all my rage i am still just a rat in a cage
now i’m naked, nothing but an animal
but can you fake it, for just one more show
and what do you want, i want to change
and what have you got
when you feel the same
even though i know-i suppose i’ll show
all my cool and cold-like old job
despite all my rage i am still just a rat in a cage
then someone will say what is lost can never be saved
despite all my rage i am still just a rat in a cage
tell me i’m the only one
tell me there’s no other one
jesus was an only son
tell me i’m the chosen one
jesus was an only son for you
despite all my rage i am still just a rat in a cage
and i still believe that i cannot be saved

 

in Mellon Collie & The Infinite Sadness de Smashing Pumpkins, Universal Music, 1995

Sábado é dia de…

Fotografia in www.etsy.com, via Pinterest (Kate Wolf)

Fotografia in www.etsy.com, via Pinterest (Kate Wolf)

ABOBORAR. Seja pelo tempo, que tem estado a amolecer de dia para dia, seja pela data, que quase exige que nos rendamos à abóbora, a Letras num Papel propõe que hoje aboboremos! Bom fim de semana.

 

Dou a palavra (ou quase)…

Fotografia de Jason Idzerda in www.designbeep.com

Fotografia de Jason Idzerda in www.designbeep.com

Neste domingo, o «Dou a palavra…» apresenta-se um pouco diferente. Quando pensava no que ia publicar hoje, apenas surgiam imagens e não propriamente palavras. Assim, decidi fazer-me a vontade. Uma estação e inúmeros sentimentos e sensações capturados numa imagem, num momento, num tempo que para por um segundo. Uma estrada que se transforma em espelho, porque os espelhos são tudo aquilo que mostra o que de mais belo, ou de mais horrível, cada ser tem dentro de si. E não temos outro remédio, por mais que o evitemos, a não ser percorrer esse caminho e olharmos para o que ele reflete uma e outra vez. Bom domingo.

Sábado é dia de…

Imagem encontrada em flickr.com, via Pinterest (Magali Fervenca)

Imagem encontrada em flickr.com, via Pinterest (Magali Fervenca)

OLHAR PARA O MUNDO ATRAVÉS DA JANELA. Há dias em que não apetece sair. Quando calham a um sábado, é a perfeição! Bom fim de semana!

Dou a palavra…

a LI TS’ING CHAO (c. 1081 – c. 1140). Certamente desconhecida para muitos, esta poetisa chinesa apresenta uma descrição do outono plena de delicadeza. Bom domingo outonal.

«Extinguia-se o perfume dos vermelhos nenúfares.
O ar leve do Outono penetrava através das pérolas de jade da cortina.
Quem me mandava essas mensagens de amor, desde as nuvens,
na barca das orquídeas, ao resplendor das tochas?
É a estação em que voltam os cisnes bravos e o luar inunda o pavilhão do oeste.
As flores – é a sua sina – revoluteiam e espalham-se.
A água segue o seu destino correndo a concentrar-se num mesmo lugar.
Os seres da mesma espécie convergem num mesmo sonho.
Mas nós, ai!, estamos separados, e eis-me aqui, solitária, já em excesso acomodada à tristeza.
Nada será bastante para destruir este amor.
Por um momento deteve-se nos meus olhos; mas agora gravita já no meu coração.»

in Li Ts’ing Chao, Mesa de Amigos (versões de poesia por Pedro da Silveira), Poemário Assírio & Alvim 2004, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

Por um pedaço do mundo

Fotografia de Jaroslaw Datta in www.bleaq.com

Fotografia de Jaroslaw Datta in www.bleaq.com

Por um pedaço do mundo, arrasa-se o mundo. A natureza do ser humano revolve-se, emerge, explode dentro de mim. Por um pedaço de ti, por um pedaço da tua vida, por um pedaço de nós, sou capaz de tudo, até de te destruir. Destruir-te para te conquistar. Para te ter para mim. Ainda que destruído. Ainda que ferido de morte. Serás para mim. De mim. Meu. E, depois de te arrasar, pegarei nos teus pedaços e voltarei a juntá-los e, então, reconstruirei  o que destruí e sei que entenderás a minha razão e não te importarás com o que passou, com o que te fiz passar. Perceberás que não pode haver paz se antes não tiver havido guerra. Sim. Perceberás. Por um pedaço do mundo, arrasa-se o mundo. Mas não importa, porque, por um pedaço de nós, invento outro mundo. O nosso mundo. Por um pedaço de ti, faço o que for preciso. E entenderás. Entenderás.