Linguagem inclusiva, mas poucochinho…
«Portugueses e portuguesas», «cidadãos e cidadãs»… Chamam-lhe linguagem inclusiva (http://www.igualdade.gov.pt/IMAGES/STORIES/DOCUMENTOS/DOCUMENTACAO/PUBLICACOES/LINGUAGEM.PDF) e ocupa muito do tempo de inúmeras instituições por esse mundo fora. No entanto, e referindo-me em concreto ao que me incomoda, este tipo de linguagem poderia também ser denominada de a mais nova forma de assassinar a gramática portuguesa de uma maneira até simpática e parecendo que se importam com os direitos das mulheres. A pergunta é simples: de que forma é que alguém se sente mais incluído na vida social e/ou política deste país pelo simples facto de, nos discursos, documentos oficiais, etc., se invocarem os destinatários no género masculino e também no feminino? É que, além de tudo, a gramática do português é muito clara neste aspeto: referindo-se a um coletivo, bastará haver um membro do sexo masculino para o nome assumir esse mesmo género.
Enquanto portuguesa e cidadã e tudo o mais que queiram no género feminino, sinto-me insultada de cada vez que este vocativo é pronunciado, sendo que em tempo de campanhas, é-o até à exaustão. E sinto-me insultada, porque, enquanto portuguesa, enquanto cidadã e, principalmente, enquanto mulher, gostaria que os nossos políticos, os nossos «pensadores sociais» ou lá como se chamem os que têm estes rasgos profundos de inteligência, a preocuparem-se com a inclusão das mulheres, o fizessem de verdade, olhando para os seus verdadeiros problemas: para a desigualdade de tratamento no local de trabalho, para a diferença de salários, para os obstáculos que têm de enfrentar quando há que conciliar carreira e família, para…, enfim, para a vida real!
É certo que a língua muda e que deve acompanhar o evoluir dos tempos, mas há tanto a fazer pela inclusão das mulheres (e não só), que todo este aparato me parece obsoleto e profundamente oco.

Olhava para o relógio como se, em qualquer momento, os ponteiros pudessem fugir do caminho que infinitamente trilhavam. Olhava para o relógio com a ansiedade de quem espera que a vida possa ter ainda alguma coisa para lhe oferecer. Olhava e via que podia ser; que o momento em que os ponteiros se encontrassem, finalmente, junto ao número 12, sobranceiro, cheio de si e de desejos de milhões de pessoas, seria, para ela o recomeço de tudo, o fim e, simultâneamente, o princípio, a morte e a vida numa única existência. Olhava para o relógio e acreditava. Começava mais um ano e tinha de acreditar.
Pôs 3dl de leite com 1,5dl de óleo, a casca de limão e o sal, num tacho, a ferver. Pensou noutros natais que já vivera ali em casa. Sorriu quando se lembrou da expressão do Pedro, ainda bebé, ao ver, pela primeira vez, a árvore de Natal cheia de luzes, fitas e bolas coloridas; ou daquela vez em que a Joana correu, assustada, para o seu colo mal o Pai Natal entrou na sala, e nem o facto de ser ele o portador dos tão desejados presentes a fez mover-se dos seus braços. Quando o leite e o óleo já ferviam, juntou 250gr de farinha e mexeu energicamente com a velha colher de pau que tantas vezes usara para preparar as consoadas. Pensou que talvez fosse melhor não estar a fazer doces, mas, a verdade, é que a ajudava a esquecer-se da vida ou, se calhar, a lembrar-se. Pareceu-lhe ouvir a porta da rua a bater. Levantou a cabeça em sinal de alerta, mas não ouviu passos. Espreitou para o corredor, nada. Deveria ter sido o vizinho a chegar. No momento em que a massa já se descolava do tacho, parou de a mexer; pôs o recipiente na bancada da cozinha, havia que deixar arrefecer. Olhou para a fotografia do Miguel, acompanhado do avô e dela própria; imaginou como seriam as suas feições, agora. Como seria bom estarem todos juntos, outra vez! Reparou no relógio: marcava as 18h30. Eram 18h30 do dia 24 de dezembro. Sentou-se, à espera. Pouco depois, verificou que a massa já estava fria; juntou-lhe seis ovos inteiros e mexeu tudo muito bem. Tinha posto, entretanto, óleo ao lume para fritar as colheradas de massa, que ia deitando com a segurança própria de quem já repetira esta tarefa mais vezes do que aquelas de que se lembrava. Eram quase 20h. Polvilhou os sonhos de Natal com açúcar e canela. Levou o prato para a mesa, que estava posta para uma pessoa, para ela própria. Sentou-se. Olhou em volta e a quietude apertou-lhe o peito. Estava só com os seus sonhos. E chorou.



